sábado, 7 de setembro de 2013

Destruindo o mito da cerveja e do cigarro

       Para começar, quero deixar claro que não estou tomando uma posição paternalista/moralista ao escrever essa crítica, antes de mais nada, faço coro com o "deixa quem quiser fumar, fumar; deixa quem quiser beber, beber", e obviamente, com o "deixa quem quiser se ferrar, se ferrar". Pretendo fazer uma breve análise do problema, apresentando em seguida argumentos pessoais e gerais contra o uso (não a proibição) de tais substâncias. Sem mais delongas, vamos ao texto:

       Penso que o principal motivo que está por trás do uso de tais substâncias, cada uma com sua peculiaridade, é o olhar do outro, sobretudo quando o indivíduo começa a utilizar tais, em outras palavras, a forma como o outro vê conta mais do que a própria opinião e/ou gosto do fumante ou daquele que bebe (ia usar a palavra "bêbado", mas seria desproporcional, uma vez que tal é utilizada como um excesso do uso de álcool, e não é o caso de todos). Vejamos os adolescentes – fase onde a maioria dos usuários viciados em tais drogas começam a utilizá-las –, estão num período na vida de descobertas e novidades, muitos gritam para os pais que cresceram chegando bêbados em casa ou fumando um cigarro na "cara dura", uma piada que muitos dos que estão lendo já viveram ou conhecem alguém que viveu. Nada como mostrar toda a sua rebeldia usando tais drogas (não focarei aqui sobre as outras drogas, as chamadas ilícitas, até mesmo porque normalmente elas só entram num segundo momento, mas também certamente se aplicam a tais). Mas não é só o olhar dos pais que estão em conta para os "aborrecentes", inclusive podemos afirmar com segurança que esse não é o primeiro, o olhar que mais conta é o da turma, dos amigos, dos colegas de classe, do namorado(a), enfim, querem ser aceitos, querem fazer parte de um grupo, querem não ser "caretas". É óbvio que não são todos que passam por essas aventuras da adolescência que serão viciados ou dependentes de tais, mas esse começo já mostra o caráter alienante da bebida e do cigarro.
       Antecipando as críticas ad hominem, quanto a mim, por N motivos, por ver pessoas próximas sofrendo com tais substâncias, por estrar inserido em um meio religioso na época, felizmente não tive uma adolescência desregrada com tais substâncias. Mas mesmo depois, ao experimentar (e por sinal, diga-se de passagem, ter detestado), não cheguei ao ponto de inabilidade, apenas provei. Sempre achei ridículo pessoas contando como se fosse um grande feito ter bebido até cair, e hoje não é diferente, felizmente não precisei passar por tal para saber quão ridículo é – a propósito, penso que essa capacidade de empatia é uma das que temos mais que desenvolver, em relação ao bem ou ao mal, sendo o último uma questão de sobrevivência, podemos dizer de forma aforística: feliz aquele que consegue evitar os males a partir dos exemplos alheios. O mais cômico é quando alguém lhe diz: "com o tempo você aprende a gostar", ora, porque razão no mundo aprender a gostar (se é que isso é possível) de algo que se detesta sem quaisquer ganhos reais?! Abro um parênteses para dizer que tenho amigos que deixaram a religião e se tornaram verdadeiros alcoólatras, mas não acho que a religião tem de fato um papel louvável em manter as pessoas longe do que, sem eufemismos, os fiéis gostam; não obstante os ganhos sociais, penso que a pessoa tem que se conscientizar que tal é um mal, não simplesmente ser convencida por um "deus punidor que está nos céus a vigiar".
       A cerveja é um caso/piada a parte, é a alienação encarnada, repito a passagem do meu texto Alienação Social: "...vejam as propagandas de cerveja. Sol, praia, roda de amigos, felicidade, mulheres, tranqüilidade, etc, etc... É impressionante como muitos são alienados nesse ramo! A cerveja não traz felicidade nem amigos (ao contrário, muitas das vezes afasta), mas não é o que passam na mídia, logo a realidade passa a ser ficção e a ficção vira realidade. Alguém já viu, na história das propagandas de cerveja, uma que mostrasse um bêbado se quer? Parece que as cervejas das propagandas nem álcool têm, até atletas bebem! rsrs...". Desculpem-me os raros seres humanos que realmente gostam de cerveja, mas para mim ela realmente parece mijo. O mais absurdo no que diz respeito a tal merda é o fato de que a maioria dos que a tomam não apreciam o gosto de tal, abertamente confessam que tomam pelo álcool, pelos amigos, pelo namorado(a) – quase a totalidade das mulheres não gostam de cerveja, tomam apenas para acompanhar um babaca qualquer –, ou a meu ver o que é pior, muitos alegam que não conseguem "se soltar", traduzindo, ter momentos felizes, não conseguem existir como são. E quanto mais a pessoa se convence disso, chega ao ponto que não consegue mais rir sem o uso de álcool, não consegue conversar, as festas não são festas sem tal, muitos passam a não conseguir fazer sexo ou ter qualquer prazer sem estar bêbado – às vezes mal suportam a presença dos seus parceiros e "amigos"; aí colocam uma máscara chamada bebida alcoólica, e passam a não ser mais elas mesmas, onde todos os momentos "felizes" não são reais (boa parte deles esquecidos na manhã seguinte), mas breves momentos de falsos risos seguidos por horas de arrependimentos. Não estou dizendo que o mundo de quem não bebe é um conto-de-fadas de pura alegria, mas seja como for, em momentos bons ou ruins, é um mundo real. Essa alienação da cerveja é tão gritante que se evidencia até o efeito placebo, no primeiro gole boa parte das pessoas se soltam, sem ter tido qualquer possibilidade do álcool ter realizado efeitos bio-químicos no corpo, muitos só de estarem com a lata gelada na mão já se sentem seguros. Desculpe a franqueza, mas para mim a cerveja é o néctar dos tolos; muitos se fossem filmados bêbados, ao ver quão ridículos e vulneráveis ficam, pensariam duas vezes antes de ingerir qualquer bebida alcoólica.
       Quanto aos efeitos colaterais do álcool, todos estão carecas de saber, mas como afirmei no início que apresentaria argumentos pessoais e gerais, discorrerei brevemente sobre tais nesse parágrafo. Bom, o álcool é um dos principais desencadeadores de enxaqueca, particularmente, se eu tomar, fico propício a ter uma, mas mesmo para quem não tem essa dor-de-cabeça específica, o álcool provoca a famosa dor-de-cabeça da ressaca, que se muitos refletissem na última que teve, deixariam de tomar. Via de regra, nosso organismo identifica o álcool como um verdadeiro veneno – quanto mais rápido o efeito de tal droga passar, mais sadio é seu organismo –, mesmo pequenas quantidades, pois o álcool é sempre uma agressão ao corpo, por isso a famosa ânsia de vômito, o que é um problema por si só, pois quando não acontece o revertério, o organismo absorve tal, gerando no mínimo a desidratação – já ingerido em grandes quantidades, sabemos que tem idiotas indo ao coma alcoólico e eventualmente a óbito. À longo prazo sabemos bem os males do álcool, destruindo não apenas o fígado (contra muito divulgado), mas literalmente todos os órgãos, inclusive o cérebro, debilitando com o tempo a memória, os reflexos e a capacidade de raciocínio; mas a maioria das pessoas são estúpidas (sim, esta é a palavra se eu pretendo ser franco), e como esses maus efeitos se dão paulatinamente, não tendo uma significância imediata, acham que eles não existem. Vejamos então os efeitos colaterais: há inúmeros levantamentos de dados que comprovam a ligação de acidentes automobilísticos com o uso de álcool, matando inclusive inocentes que nada tem a ver com o jumento bêbado irresponsável atrás do volante; brigas e confusões em estádio de futebol diminuíram inegavelmente após a proibição de bebidas alcoólicas em tal local, o que comprova que boa parte das confusões onde há aglomeração de pessoas se dá pelo fato dos indivíduos estarem alcoolizados, sendo direto, mortes seriam evitadas sem o álcool; vemos ainda pessoas dependentes de tal substância destruindo suas famílias, que ao invés de agirem para mudar os revezes da vida, simplesmente "afogam as mágoas" em um copo de bebida – bom se ficarem só nisso, pois muitas delas se transformam com tal droga, ao ponto de chegar em casa e descontar nos pais, no cônjuge e nos filhos, gerando agressões e mesmo assassinatos; muitas pessoas pegam Aids e outras doenças venéreas em momentos de embriagues, ou engravidam de forma indesejada, o que por sua vez, aumenta o número de abortos (sobretudo inseguros, tendo em vista a atrasada mente dos nossos legisladores sobre essa questão); muitos estupros e outros crimes acontecem devido ao álcool, seja o autor ou a vítima embriagada, não é atoa que existe o infame ditado: "cú de bêbado não tem dono" (obviamente não estou justificando tal, mas analisando os fatos). E para aqueles que ainda não viram na prática, o estado que fica alguém realmente dependente químico do álcool é deplorável, falam muito de como o crack destrói uma pessoa, mas num estágio avançado, não tem diferença, a não ser uma, qual seja, o álcool é barato, legal e vende em qualquer esquina.

       Ok. Foquemos agora no cigarro. Muita coisa de uma droga se aplica à outra, logo, não repetirei minuciosamente aquilo que elas tem em comum. Começo chovendo no molhado, pois as anti-propagandas do cigarro já mostram exaustivamente os inúmeros argumentos contra o mesmo, destruindo principalmente todos os órgãos do sistema respiratório e do circulatório, causando câncer, enfisema, asma, bronquite, trombose, infarto, úlceras, impotência sexual, e etc. Como disse que apresentaria também os meus motivos pessoais, sou alérgico à fumaça, de forma que a mesma gera ainda mais problemas ao meu sistema respiratório do que em quem não é, causando rinite e dificuldade respiratória com relativamente pouca exposição, isso ocorre pois, falando de forma ilustrativa, é como se alérgicos tivessem uma "super-proteção" contra esses males externos, de forma que o organismo exagera para se proteger. Pois bem, a fumaça é evitada por todos os animais como um reflexo, é natural todo ser que respira fugir dela movidos por um instinto de sobrevivência, mesmo sem as pesquisas médicas avançadas de hoje, sempre se soube que a fumaça faz mal ao organismo, portanto, é difícil ver algo mais estúpido do que inspirar fumaça deliberadamente, mas os "homo-imbeciens" fazem tal. Assim como no caso da cerveja, tendo em vista que para maioria dos fumantes os males não são observados em pouco tempo, muitos acham que eles não existem. Certamente há um mal evidente, a abstinência de nicotina gera pânico, tremor, calafrios, palpitações cardíacas e outros sintomas nos dependentes de tal substância, mas eles ignoram tais, pois providenciam para que não falte; com tantos problemas que já temos, inventam mais esse para se preocupar, uma busca insaciável e incontrolável. Mas enfim, já falei demais sobre os males que todos nós sabemos de cor, em suma, com tanta informação, tem que ser muito alienado para começar a fumar (veremos a seguir o que leva alguns a tal). Felizmente hoje não vemos mais na TV o mito de jovens saudáveis, "escaladores de montanha" chegando no pico e acendendo um cigarro como outrora.
       O cigarro, ao contrário de outras drogas inalatórias, não gera alteração na consciência, o efeito que alguns dizem dele ser um calmante é mais placebo do que ação da nicotina e/ou demais substâncias. Pergunta-se portanto: o que leva alguém em sã consciência fumar? Mais uma vez, como dito no início, penso que o principal envolvido (não só) é o olhar do outro. Mesmo não tendo mais propagandas diretas sobre o cigarro, temos as indiretas, por exemplo nos filmes, seriados e afins. De forma que, o cigarro representa um "dane-se", representa autonomia, rebeldia, liberdade, e etc. Estados ilusoriamente buscados no cigarro por adolescentes ingênuos que querem se auto-afirmar? Talvez, boa parte sim. Mas porque vemos adultos fumando, mesmo sem ninguém por perto, alguém pode estar pensando isso para me refutar. Ora, tente outra! Segue como vejo isso: o poder de dependência do cigarro é muito alto, logo, com pouco tempo o olhar do outro passa a não ser o único motivo – apesar de continuar sendo um dos –, a fumaça se torna algo prazeroso ao fumante, não apenas devido ao efeito placebo, mas ao efeito da substância altamente viciante nicotina (e outros vários químicos nocivos presentes no cigarro) no sangue. Outro ponto que não podemos desconsiderar é a força do hábito, um sujeito costuma fumar sempre depois do almoço, outro sempre ao tomar um café, outro sempre em festas, outro no ponto de ônibus, outro ao sentar no trono do banheiro e por aí vai. Junta isso tudo, temos como resultado dependentes crônicos. Meu avô adorava o cheiro do cigarro mais do qualquer outra coisa, após tanto tempo, o olhar dos outros realmente passou a ser só um pano de fundo para ele; morreu de câncer no pulmão, quando adoeceu e foi obrigado a parar de fumar, refletindo, não se via a não ser como um estúpido por ter fumado a vida toda, usou várias vezes a expressão: "eu destruí a fonte da vida". Infelizmente não teve volta. Sim, todos nós vamos morrer, de uma forma ou de outra, mas certamente ninguém quer sofrer, e o cigarro não traz apenas sofrimentos no fim da vida, mas durante ela.
       Então, a situação é tão gritante que é difícil a gente compreender um sujeito plenamente informado dos males que tal causa não querer parar de fumar, se ele tem ciência de fato, certamente quer largar o vício, mesmo se o sujeito for um suicida (ora, mate-se de forma rápida!); indubitavelmente se trata de um "prazer" que não vale o preço que se paga. Um amigo meu médico, conversando sobre essa questão da informação, mencionou um estudo feito com alunos do ensino médio na Alemanha – vou procurar com ele a referência e posto aqui –, onde foi apresentado um pulmão de fumante ao lado de um de não-fumante (para quem não sabe, o pulmão do fumante é completamente preto, com uma textura horrível), resultado, tanto o número de alunos que experimentavam cigarro como dos que continuavam fumando caiu para a décima parte.

       Não podemos desconsiderar ainda um grave problema colateral, os fumantes passivos, muitas vezes crianças, que pagam o preço dos viciados inconsequentes. Sem contar o quanto esses produtos (álcool e cigarro) alimentam esse sistema capitalista visceral, não apenas com a venda dos seus lixos, mas fortalecendo cada vez mais a mercantilização da saúde, uma vez que são uma fábrica ambulante de doenças. Essas empresas são verdadeiros impérios, vendendo indiscriminadamente a morte e o sofrimento, ética é uma palavra que elas não tem no dicionário, onde os porcos donos das mesmas estão em uma banheira de hidro-massagem (quiçá de ouro) rindo da sua cara nessa hora – indico o filme O Informante de 1999 para se ter uma ideia. Sei que é difícil parar com tais vícios, mas creio que todos deveriam ao menos tentar, as pessoas que conheço que pararam com tais se setem bem melhores hoje.
       Cito esta passagem de Sêneca para corroborar o que fora dito aqui, reflita: "A vida, se souberes utilizá-la, é longa. Mas uma avareza insaciável apossa-se de um, de outro, uma laboriosa dedicação a atividades inúteis, um embriaga-se de vinho, outro entorpece-se na inatividade; a este, uma ambição sempre dependente das opiniões alheias o esgota, um incontido desejo de comerciar leva aquele a percorrer todas as terras e todos os mares, na esperança de lucro; a paixão por assuntos militares atormenta alguns, sempre preocupados com perigos alheios ou inquietos com seus próprios; há os que, por uma servidão voluntária, se desgastam numa ingrata solicitude a seus superiores; a busca da beleza de um outro ou o cuidado com a sua própria ocupa a muitos; a maioria, que não persegue nenhum objetivo fixo, é atirada a novos desígnios por uma vaga e inconstante leviandade, desgostando-se com isso; alguns não definiram para onde dirigir sua vida, e o destino surpreende-os esgotados e bocejantes, de tal forma que não duvido ser verdadeiro o que disse, à maneira de oráculo, o maior dos poetas: 'Pequena é a parte da vida que vivemos.' Pois todo o restante não é vida, mas tempo." (SÊNECA. Sobre a brevidade da vida. § II, 1-3)
       Enfim, tenho ainda outros contra-argumentos para o uso de tais substâncias, mas creio ser suficiente por hora, se aparecer um defensor de tais, podemos continuar nos comentários do texto. Termino com a bela imagem do texto de Platão, "O Banquete", onde Sócrates sai sóbrio, feliz e pleno de si, muito superior aos seus convivas desmedidos escornados em um canto qualquer: "Mas os outros, sem conseguir acompanhá-lo, caíram no sono. Primeiro adormeceu Aristófanes e, ao amanhecer, Agaton. Sócrates acomodou-os, levantou-se e saiu. Como de costume, Aristodemo o acompanhou. Sócrates dirigiu-se ao Liceu, tomou banho e passou lá o dia inteiro. Ao entardecer foi para casa repousar" (223d).

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Mesmo passando mal, fiz questão de estar presente. LUTEMOS!

       Em decorrência ao intenso confronto na linha de frente do último ato, dia 22/06/2013 na região do Mineirão e na Praça Sete, quase não pude estar presente no de hoje, quando a seleção brasileira estaria aqui em Belo Horizonte. Inalei muito do maldito gás lacrimogênio, o que me deixou ruim nos dias seguintes, sou alérgico e desencadeou um bocado de tudo, bronquite asmática, rinite, sinusite, dor-de-garganta, e soma-se a isso, dor nas costas e um pé torcido. Não foi uma decisão fácil, mas não podia deixar de estar ali, ficar longe desse momento singular, muitos movimentos de esquerda estariam presentes, e também estaria dando uma força pra alguns amigos que estavam indo na manifestação pela primeira vez.

       A cada momento do percurso até a região do Mineirão, com um cansaço cada vez maior, pensava em voltar, mas tirava forças sei lá da onde pra continuar, acho que a camisa do Che servia de inspiração. Pois bem, digo desde já que não haverá descrições épicas dos confrontos dessa vez, pois não pude ficar muito tempo lá, mas tenho muitas coisas importantes a serem ditas, creio que vale a pena continuar lendo.

       Ontem, 25/06/2013, realizamos na UFMG um debate sobre os rumos que as manifestações estão tomando, com a participação de vários professores e alunos das diversas áreas acadêmicas; não pude falar o que penso, devido ao meu estado de saúde, pois inevitavelmente começaria a tossir no microfone, mas muitos disseram coisas que estavam na ponta da minha língua, foi bem democrático e aberto o debate, teve todo tipo de opinião, só não falou que não quis mesmo. Algumas participações memoráveis, como a emotiva fala de uma índia, falando do sofrimento e perseguição do seu povo, convocando todos para luta, ela foi aplaudida de pé. Gostei muito também da fala de um ex-aluno da FAFICH, professor de História, que defendeu os "vândalos", frisando para não cairmos na onda da mídia, protetora do sistema vigente, que tudo o que quer é cães que latem e não mordem. Não omitirei que houve também muita fala inútil, algumas pessoas querendo mais aparecer e fazer propaganda do que propor e colocar algo relevante. Mas de forma geral foi bom e enriquecedor; muitos estavam com medo de ir ao Mineirão, pois o que o Estado prometeu era um massacre.
       Discutimos sobre as pessoas que foram presas, ressaltando que a OAB disponibilizou assistência jurídica para os mesmos. Sobre os feridos, além de muitos passando mal devido ao gás e as lesões por balas de borracha, alguns foram feridos gravemente, tendo membros quebrados, olhos vazados, perfurações por estilhaços de bomba, tímpanos perfurados, e outros literalmente perderam a vida, guerreiros que serão lembrados como mártires desse momento histórico para sempre  a menina que teve os tímpanos perfurados no confronto de sábado é estudante de psicologia da casa. Sobre o que falar para os alunos do ensino médio a respeito do movimento. Falamos ainda sobre a reforma política. Criticamos veementemente a atitude do Feitor Fascista Clélio Campolina Diniz, que permitiu sem reunir o conselho universitário, a Força Nacional se abrigar dentro da UFMG para alvejar os manifestantes. A história da UFMG mostra que outrora a mesma abrigou os perseguidos pela Ditadura, defendeu a livre expressão e manifestação contra o Estado, agora o Campolina mancha tudo isso, um absurdo indizível, já passou da hora desse feitor sair de lá. Mas o momento melhor foi quando ficamos cientes que a PEC 37 não havia sido aprovada! Uma vitória do povo, que com toda a certeza, se não fosse as manifestações e protestos nas ruas, teria tido o resultado inverso do que teve. E mais vitórias vem por aí...

       Voltemos à manifestação de hoje: esteve presente um número de pessoas bem menor que da última vez, aproximadamente 1/3 daquele montante, mas isso não foi gratuito, eles minaram o protesto de hoje pelo medo, enviaram policiais nas escolas públicas para intimidar os alunos, falando que seria o confronto mais violento e tal – o mesmo vimos na TV, nas várias entrevistas coletivas do comandante da PM Márcio Martins Sant'Ana. Numa reunião das lideranças com o governador Anastasia ficou acordado que os "capitães-do-mato" estariam mais longes, que a primeira barreira seria feita por grades, o que de fato ocorreu, mas isso acabou por intensificar o pensamento de que quando chega neles o pau come. Além disso, sem contar a grande mídia o tempo todo colocando pavor, falando que os "vândalos" (entre aspas porque quem depreda por um motivo maior NÃO é vândalo) são terroristas e estão no meio das pessoas de bem, o nosso prefeito Márcio Lamerda vomitou numa entrevista: “Eu espero que, na próxima manifestação, a PM prenda mais. Prendeu muito pouca gente. A PM não está usando toda a força que tem, inclusive não está usando cassetetes. A estimativa é que existem 500 vândalos e o que falei hoje [segunda] para a segurança é que é preciso prender mais”. Mais de 5.000 policiais foram postos em toda a cidade para intimidar e colocar medo nas pessoas por cada quarteirão que se passava, só no Centro devida ter, jogando baixo, mil deles! Era "pau-mandado" pra todo lado: em cavalos, em motos, em carros, com todo tipo de farda e equipamento. Jogaram sujo, mas mesmo com todas essas velhacarias, mais de 50 mil companheiros estiveram presentes, mais gente do que havia dentro do estádio pra ver o jogo. (Entendam, crápulas, vocês já perderam a guerra contra o povo!). Sem querer dar uma de Jesus Cristo, quando voltei pra casa estava passando muito mais mal do que quando saí, confesso que cheguei arrepender de ter saído em tais condições, mas de qualquer forma, valeu sim a pena, agora posso dizer mais do que nunca o belo provérbio chinês: "não importa o quanto o vento sopre, a montanha jamais se curva diante dele".

       Temos visto algumas promessas significativas começando a sair do papel, talvez finalmente teremos uma reforma política para acabar com esse nepotismo de políticos "cartas marcadas" que não representam o povo. Os picaretas dos nossos deputados, devido à pressão popular, decidiram em "agenda positiva" que 75% dos royalties Pré-sal serão destinados para Educação e 25% para a Saúde. A Câmara aprovou por unanimidade o fim do 14º e 15º salários pago a parlamentar. O Senado começará a votar sobre o projeto que torna corrupção crime hediondo. E começa surgir uma luz de que os corruptos serão punidos, o deputado estadual Marcos Donadon foi condenado. Certamente está muito longe do que precisamos para mudar a realidade do povo explorado por séculos nesse país, mas as esperanças renovam. Agora o que é uma puta comédia, sério, eu não estou acreditando que nossos governantes fdp estão abaixando às pressas centavos nas passagens achando que resolverá todos os problemas com isso, tem que rir, viu... É tarde demais víboras, O GIGANTE ACORDOU!

domingo, 23 de junho de 2013

Somos 150 mil guerreiros!

       Hoje, 22/06/2013, mais um dia para se escrever nas páginas da História, mais de 150.000 pessoas foram às ruas de Belo Horizonte - MG manifestarem e protestarem, colocando a cara pra bater, gritando suas reivindicações, mostrando suas indignações. Foi um prazer ter participado desse momento, mesmo passando grandes riscos, sustos e apertos como numa zona de guerra, estivemos na linha de frente, resistimos, permanecemos unidos! Estive com orgulho na luta por um país melhor, mais digno para todos viverem. É nós que construímos o país que queremos!

       Muitos criticam os rumos que as manifestações estão tomando, dizendo que não há reivindicações direcionadas, que não se tem alvos e tal, mas isso é não entender o que se passa: ora, alguém que está com dor agonizante grita, pra depois ver o que acontece, é exatamente isso que o povo etá fazendo, está gritando, clamando por voz! E fato é que agora as reivindicações já começam a se focar e encorpar cada vez mais: contra a péssima qualidade dos transportes públicos, contra os baixos salários, contra a corrupção, contra o descaso para com a saúde e educação, contra a falta de abertura para participação política, contra os altíssimos salários dos políticos, contra os gastos com a Copa, contra as propagandas estatais na TV, contra a exploração capitalista, contra a PEC 37, contra a presidência do Senado pelo Renan Calheiros, contra os absurdos cometidos pelo Marcos (in)Feliciano na comissão de direitos humanos e minorias, contra leis aprovadas recentemente que não concordamos e várias outras. Há quem não faz muita ideia do que está acontecendo? Certamente há, mas se tem alguém bobo é quem pensa que o povo é bobo. Mas estão criticando como se as pessoas tivessem que ter a solução na ponta da língua, ora, esses críticos nunca apresentaram nada e agora estão querendo desqualificar quem tenta?! Façam-nos o favor...

       A mídia já não fala dos protestos, tudo o que focam são os "vândalos", quebraram isso, quebraram aquilo, queimaram isso, queimaram aquilo, picharam isso, picharam aquilo, etc... NÃO entrem na onda da mídia criticando todas as depredações meus caros! Tudo o que eles querem é "cães que latem e não mordem": Não estou fazendo apologia à barbárie, mas tem que ter em mente que uma coisa é depredar o patrimônio público (certamente é dar tiro no pé e não deve ser feito), outra completamente diferente é depredar essas grandes empresas sangue-sugas à serviço da exploração capitalista! Ora, uma agência bancária depredada é um dos maiores símbolos que pode ser feito contra esse sistema podre! Outra coisa, quando o dano ao patrimônio público é uma consequência colateral a um ato de ocupação, não deve ser condenado, símbolos de resistência fazem a força do movimento, como, p. ex., a maravilhosa cena que vimos em Brasília do pessoal em cima do Congresso! Critiquemos aquelas depredações sem sentido e motivo, somente tais são atos de puro vandalismo, não todas como a mídia está dizendo.

       Pois bem, falemos do magnífico ato de hoje: Tinha de tudo entre os 150.000, todas idades, raças, cores e credos, tomamos por inteiro a extensão da Av. Antônio Carlos, do Centro à região do Mineirão, vimos até cachorros e crianças no meio, foi o máximo duas garotinhas cantando sozinhas "ou pára a roubalheira ou paramos o Brasil" na volta (sim, é bonito pessoal, mas não devemos levar esses últimos para a ponta das manifestações, a truculência da polícia não vê cara). Eles não fizeram barreira dessa vez na Antônio Carlos até a Abrahão Caram, a passeata seguiu sem impedimento até o encontro dessas avenidas, território do "Estado FIFA", local onde começou a guerra. O gás lacrimogênio na Av. Abrahão Caram já estava muito forte quando eu comecei a subi-la, pouco tempo depois se tornando insuportável, mesmo colocando a máscara anti-gás que levei não deu pra ficar ali muito tempo, pois mal podia abrir os olhos, logo jogaram mais bombas e tivemos todos que recuar, ficamos então na esquina do cruzamento das duas avenidas, pouco antes do viaduto do anel, alguns companheiros estavam mais a frente na Av. Antônio Carlos, mas logo foram repelidos pela avalanche de gás lacrimogênio, fazendo mais uma vítima com ferimentos graves, outro que estava em cima do viaduto e caiu devido à repressão policial, ele está internado em estado crítico no hospital nesse momento. Ficamos ali no cruzamento por um bom tempo, controlando a euforia das pessoas que vinham correndo em pânico, falando para ficarem calmas e continuarmos unidos. Alguns manifestantes fizeram então uma grande fogueira, subiu uma cortina de fumaça preta, chegando ao helicóptero dos "capitães do mato" que nos cercavam. Nesse momento eles começaram a jogar bombas indiscriminadamente, uma após outra no cruzamento das avenidas, no meio do povo. Começa a guerra.

       Antes de continuar a descrição dos momentos de terror, não posso deixar de narrar um dos fatos mais bacanas e emotivos enquanto ainda estávamos concentrados na esquina: um grupo de bombeiros se uniu conosco nas manifestações, isso mesmo, bombeiros a serviço do Estado, vieram segurando uma larga faixa em direção ao topo da Av. Abrahão Caram, só não prosseguiram porque o gás estava insuportável, mas foi bonito de ver! Seria maravilhoso se eles conseguissem chegar de frente para o Choque, mas de qualquer forma, valeu demais. Está registrado, continuemos os relatos.

       Foi uma correria louca, filmei alguns momentos – isto é, nos que pude segurar a câmera –, os postarei em breve no Youtube. A cada momento a tensão só aumentava, perdi a conta de quantas pessoas passaram carregadas por mim, sem conseguir respirar, ou sem conseguir andar, ou ainda desmaiadas; havia um grupo de médicos e estudantes de medicina voluntários no meio do povo – isso, exatamente como acontece nas guerras –, sensacional ver eles correndo atrás dos que passavam mal ou estavam feridos, ajudando e literalmente salvando vidas. Resistimos o máximo que pudemos, tentando manter a calma a todo momento, o que nem sempre é possível, teve uma hora que a Força Nacional (capachos do Imperialismo que chegaram à pedido de socorro do governador Anastasia) apareceu por trás da cerca da UFMG e começou a atirar balas de borracha e bombas pelos flancos, foi um tumulto só, um perigo enorme alguém morrer pisoteado nessas horas. Eles foram nos atacando com bombas de efeito moral e gás lacrimogênio a Av. Antônio Carlos toda, mesmo quando pensávamos que havia acabado, uma bomba estourava do nada a poucos metros (né Gustavo Simim?). Sinceramente, não sei como o estoque/munição deles não acabou dessa vez.

       Durante o percurso de volta à Praça Sete em meio à bombas, vimos cenas maravilhosas, verdadeiros e legítimos símbolos de resistência (os alienados pela mídia discordavam, houve algumas discussões enérgicas entre nós, mas boa parte deles acabavam logo sendo refutados e convencidos pelos outros): agências bancárias completamente destruídas (fiz questão de parar a bike pra jogar minha pedra numa dessas sangue-sugas do capitalismo, mesmo tendo chegado tarde perto da maldita e os vidros já estavam todos quebrados, acabei de partir um pedaço trincado), grandes empresas de carros importados, mesmo protegidas com maderite, depredadas, outdoors em chamas (todos aplaudimos até doer as mãos quando colocaram em chamas um enorme da Coca-Cola para a Copa), pichações com mensagens conscientes de protestos e inúmeros cartazes de propaganda comercial rasgados! Sei que são meros aranhões para essas exploradoras, mas o importante é que mostramos que o povo tem força, que unidos somos destrutivos para todo sistema à serviço do Imperialismo. Uma bela analogia que podemos usar para tal, dizia Bertolt Brecht: "Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem". Como já disse, certamente não apoio as depredações gratuitas e/ou que são tiro no pé, como por exemplo muitos pontos de ônibus, semáforos e placas de sinalização que vi quebrados, mas essas não podem manchar as tantas outras significativas que vimos.

       Chegando à Praça Sete, a ocupamos por pouco tempo, pois mais agências bancárias foram quebradas, e, claro, os capachos do Imperialismo chegaram para as defender. Foi a zona de guerra mais sinistra que vi, nunca tinha visto tanto policial junto em um só lugar! Teve um momento que estávamos sem fazer nada, concentrados aonde o trânsito já estava fechado pela própria BHTRANS, no cruzamento da rua São Paulo com a Av. Amazonas, foi só chegando mais e mais viaturas, o pessoal cantando "sem violência, sem violência" e eles começaram a sapecar uma bomba atrás da outra na gente (detalhe, nessa hora tinha deixado minha bike no Maletta, nem dava pra voltar pra pegá-la), uma truculência inexplicável. Corríamos de uma rua do Centro pra outra, lojas fechando portas às pressas, pedras voando o tempo todo, quando vi estava na esquina da rua Rio de Janeiro com Goitacazes, já próximo da onde eu queria chegar, foi quando presenciamos uma cena de covardia extrema: dois PMerdas pegaram uma mulher pra cristo, ela berrava em prantos e eles a arrastavam e puxavam com uma força desproporcional, começamos a gritar "covardes, covardes, covardes" e a pressioná-los, foi quando o filha da puta joga uma bomba no meio da gente, foi uma correria pela Rio de Janeiro indescritível, muita gente largando o serviço, pessoas idosas desesperada com o barulho, eles não deram a mínima! Tentamos voltar para perto da mulher que eles seguraram, mas não dava, o gás não deixava. Minha câmera acabou a bateria, e infelizmente não pude registrar esse momento, mas tinha uma galera filmando, o ato de covardia deles foi registrado.

       Finalmente, encontrei uma amiga exausta pelo tumulto e correria indo embora, essa era nossa cara, exaustão, mas valeu cada minuto de batalha. É hora de mudar esse país! LUTEMOS!
       "Não importa quanto o vento sopre, a montanha jamais se curva diante dele". (Provérbio Chinês).

terça-feira, 18 de junho de 2013

Vivendo a História

       Até esse momento o pessoal da minha geração apenas havia lido os grandes momentos históricos, hoje estamos fazendo história. Posso dizer aos meus netos, eu estive lá, eu estava na linha de frente, eu coloquei a cara pra bater, eu participei da guerra, eu lutei para mudar esse país.

       Começaram as manifestações em todo o Brasil, o aumento da passagem em São Paulo foi o estopim que acendeu a dinamite, mas não se trata apenas de protestar por centavos na passagem, e sim por voz! São anos de opressão, corrupção, exploração, expressão reprimida, anos engasgados, vendo uma política distante que comanda de forma arbitrária, calando os oprimidos e os crítico ao sistema vigente a qualquer custo, agora tudo explode! Uma juventude cada vez mais consciente, que tem fortes ferramenta em mãos: a internet (sobretudo as redes sociais e sites de vídeos) e câmeras ligadas a todo momento. Nada mais fica encoberto.
       Estive presente no 1º Ato no dia 15/06/2013, onde quase 10.000 pessoas rodaram as ruas e principais praças de Belo Horizonte protestando contra a exploração e convidando a todos a se unirem em protesto. Deu muito resultado: hoje, 17/06/2013, quase 30.000 pessoas compareceram às ruas e fomos todos seguindo na Av. Antônio Carlos, conhecidos e desconhecidos unidos, em direção ao Mineirão, onde ocorria a partida entre Taiti e Nigéria pela Copa das Confederações. Era um mar de gente, eu andando de bike tive uma visão privilegiada do movimento, fluíamos como um agitado rio pela avenida, ocupando todas as faixas, mostrando que a luta existe, que o povo não se entregou, a revolta proletária ali a todo vapor acontecendo. Protestamos contra os governos de Márcio Lacerda, Anastasia e Dilma, tudo farinha do mesmo saco, todos à serviço do mercado e, de uma forma ou outra, promovendo a exploração capitalista. Contra a FIFA, contra essa Copa feita pra gringo e rico, contra a construção desses estádios palacetes num país como o nosso, com tantas outras prioridades urgindo – quanto dinheiro público não foi desviado nessas obras faraônicas! Havia cartazes com vários protestos e reivindicações, afinal, há muito o que se dizer, contra os baixos salários, contra a desigualdade social, contra o status quo, contra a opressão das minorias, contra esse governo da e para a classe dominante. Bonito de ver o apoio da população, olhando, aplaudindo e/ou soltando foguetes de suas janelas e varandas por onde passávamos; ver motoristas e cobradores de ônibus sair do caro e cantar em coro com o pessoal, tambores, cornetas, apitos, megafones, mostrando que existe alguém crucial que não pode ser esquecido na política: o Povo!
       As manifestações foram pacíficas até próximo à entrada da UFMG, inclusive a Coronel Cláudia estava no meio da galera durante o percurso, sendo muito gente boa com todos, tirando fotos, cumprimentando e abraçando as pessoas. Entretanto, o bloqueio policial (que já havia nos parado por um tempo a alguns metros atrás) ali se intensificou, eles estavam decididos a não deixar-nos chegar próximo ao Mineirão. Eu estava há uns 30 metros desse isolamento, alguns amigos que estavam mais próximo, me disseram que a emoção e tensão nos policiais era tão grande frente aos protestos e clamores da enorme multidão que alguns deles chegaram às lágrimas - "Ei fardado, vem pro nosso lado", cantávamos em coro. A tensão só aumentava em ambos os lados, o helicóptero da PM com um policial carregando um fuzil voando cada vez mais baixo, indo contra todas as regras de um voo seguro. Aí aconteceu duas situações (praticamente simultâneas) que desencadearam a batalha: 1- Alguns "vândalos" (entre aspas porque manifestante não é vândalo) começaram a cortar a cerca da UFMG (esta logo viria abaixo após o conflito) e entraram no Campus; 2- Em meio às convocações da vanguarda para furar o bloqueio policial, alguns trabalhadores locais apareceram querendo passar, dizendo que não estavam no protesto, os policiais não deixaram esses atravessar, o clima ficou ainda mais tenso, até que por uma brecha parte do pessoal seguiu em frente. Nesse momento eles agiram com uma violência desproporcional, lançando uma bomba de gás lacrimogênio atrás da outra e metendo o cassetete, o pânico e o tumulto foi geral. Pessoas assustadas, passando mal com o gás, pessoas caindo, outras sendo pisadas, espremidas, perdi de conhecidos nesse momento; de bike é mais fácil sair da muvuca, mas foi um "pernas pra que te quero" total pra todo mundo (né, Paola? rs). Esse foi o primeiro confronto do dia, o próximo foi muito mais violento. Os repórteres da TV aberta estavam longes demais para ver.
       Pois bem, após um tempo, o gás se dispersou, a multidão recuou bastante e eles acabaram liberando o bloqueio - na verdade eles só liberaram porque o Choque e a Cavalaria já estavam a postos na Abrahão Caram e eles queriam nos encurralar, como de fato aconteceu. Sinceramente, acredite, as minhas palavras serão pouco pra expressar o que ocorreu ali, só mesmo quem esteve presente sabe. Eu e alguns amigos da filosofia estávamos próximo do Choque e da Cavalaria, que faziam o bloqueio na Abrahão Caram (o mais próximo do Mineirão que eles deixaram a gente chegar), quando outro grupo de policiais encurralaram um pessoal em cima do viaduto, o que provocou a queda de um manifestante que se feriu gravemente, e outro batalhão de "capitães-do-mato" vinha descendo a Av. Antônio Carlos, em conflito direto com os punks e anarquistas (diga-se de passagem, esses últimos foram um braço forte no conflito). As bombas de gás lacrimogênio tomavam às avenidas abaixo, nesse momento o Choque e a Cavalaria ameaçavam descer, mas antes disso, muitos resolveram ir ajudar os companheiros em conflito. Quando eu desci, chegando lá, vi que o tumulto era muito maior do que parecia lá de cima, estávamos cercado pela direita e pela esquerda. E agora não dava mais pra voltar, pois o pessoal estava descendo desesperado dizendo que o Choque estava descendo também. Foi uma zona de guerra, cada um tentando se salvar como pode, balas de borracha comendo solto, pedras e barras de segurança voando, vidraças sendo estilhaçadas; quando alguns derrubaram um outdoor da prefeitura eles jogaram bombas de gás indiscriminadamente. Corremos pra esquerda (em direção à Lagoa), onde o bloqueio policial era menos intenso, mas mesmo assim eles fecharam todas as ruas. Tinha um repórter da TV, acho que da Rede Record, o pessoal estava gritando pra ele ir cobrir o abuso que a polícia fazia, mas ao som da primeira bomba de efeito moral que estourou mais perto do infeliz, ele correu pra dentro da van da emissora e se trancou lá como uma garotinha de 5 aninhos de idade. A galera se revoltou.
       Nesse momento não dava mais pra se esconder em nenhum canto nem atrás de nada, eles estavam vindo com tudo, por todos os lados, a adrenalina vai a mil, o gás era muito forte, já não dava pra ver muita coisa à frente, passei em meio às bombas e tiros, respirando o menos possível em direção à única viela sem policial (uma rua que estava em obras), sem saber o que viria pela frente ou aonde a mesma ia dar, sem saber se estava cercada pelos capachos do Imperialismo ou não; olhos e nariz ardendo, garganta começando a fechar (até a pele arde naquela merda), foi quando encontrei uma galera correndo morro acima também, solidários (e o pessoal se uniu mesmo, isso foi louvável) me deram um pano com vinagre, faz toda a diferença. Por fim saímos no bairro, onde as coisas estavam mais calmas, onde tinha um bar aberto para lavarmos o rosto e repormos as energias, ufa! Já passei apertos na vida, mas esse foi de longe o mais sinistro.
       Voltando pelo campo de batalha Av. Antônio Carlos após os conflitos, parecia que passou um tornado, tudo quebrado, destruído, capsulas de balas, bombas e sangue ao chão, e os repórteres gravando suas inúmeras entrevistas que nunca irão pro ar.

       Lutamos por causas justas, lutamos por dignidade, lutamos por liberdade! E vem mais por aí, esse momento é histórico. Triste ver agora o bando de político oportunista "apoiando" as manifestações pra ganhar votos em cima delas, hipócritas, aqui não tem partido institucionalizado, não acreditamos mais nesse sistema político de fachada! Direitistas estão tremendo de medo, criticam as vidraças de lojas quebradas, e se calam aos mais gritantes abusos cometidos pelo Estado, de forma direta ou indireta. Chega de mascarar os problemas, chega de tampar o sol com a peneira, é hora de mudar esse país: "Os comunistas não se rebaixam a dissimular suas ideias e seus objetivos. Declaram abertamente que seus fins só poderão ser alcançados pela derrubada radical das condições sociais existentes. Que tremam as classes dominantes diante da revolução comunista! Os proletários nada têm a perder senão seus grilhões. E têm um mundo todo a ganhar. PROLETÁRIOS DE TODO O MUNDO, UNI-VOS!" (Marx e Engels - "O Manifesto Comunista").

       Termino com uma célebre frase de Che pra refletirmos:
       "Os grandes só parecem grandes porque estamos ajoelhados" (Che Guevara).

domingo, 2 de junho de 2013

Crítica à palestra "A Origem da Vida" de Marcos Eberlin

      Estive na palestra aberta ao público do químico Marcos Eberlin, "A origem da vida", resumindo, ele defende o universo criado e regido por um criador inteligente (intelligent designer) e se coloca categoricamente contra o evolucionismo; apesar de na palestra ele não usar o conceito "deus", afirma que pessoalmente acredita que o criador inteligente é o deus bíblico, Javé. Ele ao menos teve o pudor de não defender abertamente o refutado mito do criacionismo narrado no livro de Gêneses – tudo em tal mito é contraditório à ciência, uma das muitas coisas cômicas e grotescas, p. ex., é a alegação de que os vegetais foram criados antes do Sol e das estrelas (Gn 1; 11-16). Em suma, a palestra serviu apenas para ver o nível de fantasia em que vive os afirmadores do criacionismo pseudo-científico. Segue crítica abaixo.

      Antes de mais nada, gostaria de criticar a postura dos organizadores da palestra: eles não abriram para o público participar, ao invés de passar a palavra aqueles que se inscrevessem, deram apenas um pedaço de papel para formular questões, que nem mesmo foram lidas ao final, pegaram apenas as partes convenientes e censuraram os argumentos contrários. Tal atitude foi uma das mais absurdas que presenciei, estou acostumado a participar de palestras de grandes nomes – como Charles Taylor, Ferreira Gullar, Dominique Losurdo, Rubem Alves, Fernando Novais, Moacyr Scliar, Zuenir Ventura, Drauzio Varella, Padre Mac Dowell, Craig Thompson, Frei Betto, Leonardo Boff, Sebastião Trogo, Peter Bornedal, Sérgio Cardoso, Luís Giffoni, etc –, e jamais vi uma palestra digna que não desse a palavra ao público, sobretudo na UFMG. Usaram nosso espaço e mesmo assim contrariaram a maneira que nos portamos na Universidade Federal, a saber, sem censura e todos no mesmo nível para fazer colocações. Cabe ressaltar a postura do apresentador da palestra, um sujeito que eu não sei o nome, nem sei se é da casa, o cara parecia um "Sílvio Santos gospel" achando que estava no tapete vermelho do Oscar, querendo aparecer mais que o palestrante, puxando saco do último de forma indescritível – acreditem, caberia um comentário a parte só sobre os sapatos do cara, mas os pouparei. Tal ambiente parecia mais uma igreja, não só pelo público esmagadoramente cristão, mas por podar opiniões contrárias, lamentável. Só faltou recolher dízimos e ofertas no final! (Nesse ponto isento o palestrante Marcos Eberlin, este se mostrou aberto para responder às questões privadas daqueles que chegaram até ele depois da palestra, inclusive recebeu-me educadamente no final, diga-se de passagem que alguns ficaram lá para escutar minha questão e de outros, o que deveria ter sido feito durante a palestra, portanto, a censura relatada cabe tão somente à péssima organização da ALEF - TAV).

      Pois bem, vamos às críticas sobre a palestra:
      Para começar, não se trata de uma palestra científica/acadêmica, os temas são abordados de forma muito rasa, sempre só pegando o básico e num linguajar voltado para pessoas sem qualquer conhecimento na área, é mais infantilmente didática que argumentativa. Não foi apresentado se quer um artigo científico como referência, não foi trago um estudo ou pesquisa séria, mas apenas opiniões jogadas ao ar, com desenhinhos e videozinhos simplórios para, sinceramente, alunos do ensino fundamental e olhe lá!

      Se trata de uma palestra pautada na emoção, ridicularizando opiniões contrárias respaldadas em séculos de pesquisa, sem quaisquer refutações sustentáveis (e o público só faltando gritar aleluia). Por exemplo, logo no início é passado um vídeo para louvar (e a palavra é esta mesmo, louvar!) as criaturas do universo, sobretudo o homem, afirma que o mesmo é uma "máquina perfeita" – se esqueceram da nossa frágil coluna, um péssimo artefato de engenharia para um bípede ereto, das doenças, anomalias genéticas, deformações, vírus e bactérias que nos matam sem o menor esforço. Passam a visão antropomórfica do mundo como se tudo fosse perfeito à luz do que o homem considera belo e bom.

      À seguir, ele usa vários desses exemplos simplórios para afirmar que estamos diante de unicamente duas hipóteses quanto à origem do universo: 1- Se trata de um criador inteligente, ou 2- Se trata de forças naturais. A palestra tem tais como pilar, o que já é um erro, pois não estamos apenas diante dessas hipóteses. Primeiro, as duas coisas podem ser uma só, como na visão Panteísta (Espinoza) p. ex., o "designer" não precisa estar fora das forças, tal pode ser um com elas. Segundo, filosoficamente a criação não é algo necessário, haja visto a teoria atomista (Demócrito), onde nada foi criado, sendo os átomos e o vazio eternos – pode-se argumentar que mesmo nessa situação é necessário pensarmos numa configuração primeira de tais átomos, ou ainda que fora necessário algo para tirá-los da inércia, de fato, são argumentos a se considerar, mas ainda assim não implica que tal causa do movimento tenha sido algo fora do universo, é perfeitamente possível imaginar "átomos autônomos". Terceiro, a criação também pode ser colocada em suspensão quando reconhecemos que o observado empiricamente pode ser mera ilusão, meu cérebro pode estar numa cuba, similar ao filme Matrix (1999); ainda pode-se afirmar que a ilusão na cuba teve um início, de fato, mas isso não implica que algo fora criado além de "mim", podem ser imanências do meu ser. Quarto, sabemos que ciência é sempre dos fenômenos, nunca da "Coisa em si", como bem demonstra Kant, quanto à última, estamos fadados à ignorância, pois não existe ciência pura, isso é ilusão, toda a ciência que fazemos é necessariamente contaminada pela perspectiva humana, não importa se estamos usando o melhor macro ou microscópio, sempre é o olho humano por trás, mesmo usando o melhor acelerador de partículas, sempre é o homem a observar os dados.

      Ele falou muito sobre como é raro nosso planeta, como é singular a vida na Terra, como tudo está ajeitado de acordo e coisa e tal; é verdade, mas ele compara isso a ganhar inúmeras vezes na loteria, usa a velha analogia dos dados sempre caindo com a mesma face para cima para alegar que tal não pode ser obra do acaso. Mas esse não é um bom argumento, não só devido ao fato de que o universo é um ambiente extremamente hostil, mas sobretudo porque alguma formação teria que haver nele, não importa se é uma em um trilhão, alguma teria que estar lá, não há nada de espetacular nisso. Conhecemos apenas a formação em que vivemos, logo, não temos como ajuizar sobre as (possíveis) infinitas outras.

      Uma das coisas que ele ridiculariza, ou melhor, tenta ridicularizar sem apresentar qualquer fundamento, apelando tão somente para a emoção, são as hipóteses de como a água se deu na Terra e como a Lua surgiu, entre outras. Não só uma vez ele perguntou se "acreditamos em Papai Noel" ao trazer as melhores teorias científicas da atualidade ao tema. Curioso que ele nega as teorias mais plausíveis vigentes sem apresentar qualquer outra no lugar, se resume a dizer que foi obra do "criador inteligente". Ele alega que defende uma ciência racional (usa a expressão "Ciência com C maiúsculo") e respaldada na experiência. Ora, como é possível um químico defender que átomos (entenda-se por tais: elemento primário/elementar indivisível) surgem do nada?! Pois se ele afirma que a água (H²O) na Terra é criação do intelligent designer sem mais, é exatamente isso que ele está afirmando! Sobre a teoria da influência do planeta Júpiter para o acúmulo de água na Terra, ele simplesmente a desqualifica dizendo que, segue suas próprias palavras: "isso é acreditar no São Júpiter, mas vocês não acreditam em gnomos e fadas, certo?". Ele nega as hipóteses do surgimento da Lua – uma parte que se soltou da Terra, ou um planeta pequeno que se chocou com o nosso –, sem demonstração contrária, sem apresentar qualquer outra no lugar, dizendo tão somente ter sido "obra das mãos do criador inteligente". Como alguém que diz tomar a ciência e a experiência como base acredita que algo surge do nada?! Quando foi que se observou algo surgindo do nada para levantar tal hipótese?!

      Deus é sempre a resposta mais fácil para "resolver" qualquer problema, nada como dizer simplesmente "foi deus que fez" mediante o desconhecido. Ao se descobrir os mecanismos de um fenômeno qualquer, deus perde o mérito como causa de tal – como diz o físico Neil DeGrasse Tyson, "deus é um bolso cada vez mais vazio". O Marcos Ebelin não usa o conceito "deus" na palestra, como já dito acima (usa sempre "criador inteligente"), contudo não se saiu bem ao argumentar contra o God of the gaps (Deus das lacunas), se resumindo a dizer que era a melhor explicação, sem apresentar qualquer fundamento sólido. Vejam, mesmo que se explique algo, como, por exemplo, os mecanismos físicos dos raios (ele traz esse exemplo na palestra para dizer o que são forças mecânicas naturais), não podemos descartar Zeus por trás; para o Marcos podemos sim, ele diz apenas que Zeus não é a melhor explicação, mas desde quando uma explicação melhor refuta cabalmente a "pior" sem mais? Claro que não estou aqui falando que devemos levar a hipótese de "Zeus lançador de raios" a sério, o que estou afirmando é que não temos como falsificá-la simplesmente por explicar o mecanismo que leva a tal, pois Zeus pode ser o criador do mecanismo – certamente não temos qualquer motivo para levar essa hipótese (mística) a sério, pois podemos explicar tal de forma bem mais simples, só por fenômenos físico-químicos, é a conhecida Navalha de Ockham, mas essa orientação para tomada de decisão, proposta por Guilherme de Ockham, não falsifica por si só outras hipóteses menos plausíveis. Ademais, a teoria do criador inteligente é infalsificável, pois independente do que ocorra no mundo os que acreditam nesse criador podem dizer que é obra dele; ora, desde Karl Popper reconhecemos que o que não é passível de falsificação não pode ser tomado como teoria científica, pois não existe teste para refutar tais alegações nem evento possível ou imaginável capaz de contradizê-la.

      O Marcos afirmou, mostrou ilustrações e usou várias metáforas para dizer que a vida conforme existe não aconteceria simplesmente com o tempo. Mas como alegar isso se o que conhecemos do universo é tão ínfimo? Como negar a atuação de uma força natural que ainda não conhecemos que pode elucidar tudo?! O fato de não sabermos como a vida surgiu, não nós dá o direito de afirmar que tal não pode ter surgido de forma natural, apenas não sabemos, logo a atitude racional e sincera é suspender o juízo, não afirmar que é obra de um ser que não se manifesta no mundo. Pode ser obra de semelhante ente? Sim; assim como pode não ser o caso, por isso a única posição sustentável é a cética.

      Ele ainda fala que a vida é coisa rara e por isso somos "obra prima" de um criador. O que é, mais uma vez, insustentável, pois chamamos de vida a vida que até hoje observamos, a saber, compostos complexos de proteínas e água. Mas logicamente falando, não temos como descartar outras formas de vida, o fato de apenas conhecermos vida com aminoácidos não implica que não exista outras formas de "vida" sem os mesmos. Como refutar a possibilidade de existir seres vivos que são compostos de fogo, de chumbo, ou de areia? Por mais que pareça ficção científica, o "homem-fogo" logicamente pode existir, seria tão somente uma forma de vida completamente diferente do que conhecemos. Sendo assim, não é um bom argumento tomar a complexidade de seres vivos formados de água para afirmar um criador inteligente; a vida (complexa) é fascinante por si só? Sim. Mas o próprio termo fascinante está sobrecarregado de antropomorfismo. A vida conforme a conhecemos nos causa fascínio, mas só, se trata da limitada perspectiva humana, daí o resto são hipóteses e/ou ilusões.

      Rapidamente o Marcos negou a teoria do Multi-verso ou das "Cordas", mais uma vez, sem apresentar quaisquer argumentos válidos. Para quem não sabe, a última elucidaria muito bem todas as teorias tomadas pela ciência atualmente, uniria a física quântica e a relatividade geral, explicando a gravidade, o eletromagnetismo e as outras forças da natureza, ela é mantida em suspensão pois até o momento não pode ser observada. Ele alegou que tal não é falsificável, mas veja que absurdo, para começo de conversa, a Física não toma a teoria em questão, mesmo ela não sendo contraditória ao observado (antes o explicando), a comunidade científica não a confirmou por não ter observação que a ateste. Dito isso, a hipótese do criador inteligente deve ser vista tão somente como possível, não como necessária.

      Ele ainda nega o tempo geológico da Terra (sinceramente, como um cientista pode negar o tempo geológico da Terra em sã consciência, dizendo que em vez de bilhões de anos a mesma possui alguns poucos milhares?! Todas as evidências refutam tal. Isso sim é mais absurdo do que acreditar em Papai Noel!), do universo, dos animais e nega sobretudo o evolucionismo (como dizer que os animais contemporâneos a nós surgiram exatamente como são hoje do nada, num passe de mágica? Ora, quando foi observado algo semelhante a tal?! Simplesmente negam todos os fósseis e evidências biológicas para se defender um conto-de-fadas) – todos os pontos sem apresentar um estudo científico de fato, se resumindo a citar uma ou outra frase de cientistas. O apelo à emoção nesse ponto é totalmente visível, nega os inúmeros dados paleontológicos sobre a evolução do homem, basicamente afirmando sem mais que não somos como os macacos, fazendo piadinhas como um pastor analfabeto. Deu números errados ao dizer que nossa semelhança com os chimpanzés diminuiu, disse ser 80%, quando na verdade é de 85- 95%. Não tocou no fato de que eles tem apenas dois cromossomos a mais que a gente, conseguem andar eretos, agem de forma social, usam linguagem, ferramentas, tem o cérebro bem desenvolvido, são onívoros como nós, mas deixa pra lá. Critica o evolucionismo afirmando que os animais foram todos criados como estão e que tal não explica a origem da vida. Ora, mas explicar a origem da vida nunca foi a pretensão de Darwin! O evolucionismo é as mudanças genéticas que vemos (mutações), e alterações relacionadas com o ambiente (sobrevivendo os mais adaptados), o que com milhares de anos moldam as espécies; negar isso é fechar os olhos para toda e qualquer observação no mundo. Queria perguntar ao Marcos Eberlin como ele explica o fato de não haver fóssil do homo-sapiens da mesma época que os dos dinossauros, já que ele acredita em uma Terra onde tudo existe há tão pouco tempo!... E, ainda que o evolucionismo não fosse tão evidente como o é, ainda que venha a se mostrar uma teoria falha, isso não nos daria o direito de afirmar o criacionismo (de espécies) sem mais, pois não temos evidência para afirmar o último, sobraria tão somente a interrogação. Outro ponto: sempre é colocado na palestra "o criador inteligente", se realmente fosse o caso, porque não os criadores inteligentes? Ora, simplesmente não consideram a hipótese do politeísmo?!

      À propósito, ele quase ressuscitou o Carl Sagan, Albert Einstein e mais uma galera, eles estão tremendo até agora em suas tumbas! Colocou a foto do Einstein como se esse defendesse o que ele estava alegando, quando na verdade o deus de Einstein, ou o "criador inteligente" para não fugir ao termo usado, era uma só coisa com o universo, deus sendo as próprias leis e natureza do universo, não um ser real paralelo. Infelizmente, o que tem de crente que sai das palestras dele repetindo em coro as baboseiras insustentáveis que ele diz, sem fazer a menor ideia do que estão falando, e ainda achando que agora Deus, Jesus, vida eterna e afins estão provados, não está no gibi! Enfim, ao terminar os sorrisos falsos e a politicagem clichês, foram todos literalmente para um culto em uma igreja evangélica local (dar continuidade ao clima de imposição dogmática medieval); precisa dizer mais alguma coisa?

      E para fechar minha crítica, na verdade essa discussão não tem uma implicação real em nossas vidas, não vemos nenhum ser controlador em nossa vida prática, não vemos só coisas boas e belas no mundo, antes muito pelo contrário, se existem desígnios e propósitos não os percebemos (e mais, tais desígnios poderiam ser para o mal), logo, não temos nada para afirmá-los. Somos autônomos até que se prove o contrário. Projetada ou não, a vida é efêmera e acaba, o universo volta a ser frio, morto e sem sentido, como "sempre". Já dizia Nietzsche:

      "No desvio de algum rincão do universo inundado pelo fogo de inumeráveis sistemas solares, houve uma vez um planeta no qual os animais inteligentes inventaram o conhecimento. Este foi o minuto mais soberbo e mais mentiroso da história universal, mas foi apenas um minuto. Depois de alguns suspiros da natureza, o planeta congelou-se e os animais inteligentes tiveram de morrer.
Esta é a fábula que se poderia inventar, sem com isso chegar a iluminar suficientemente o aspecto lamentável, frágil e fugidio, o aspecto vão e arbitrário dessa exceção que constitui o intelecto humano no seio da natureza. Eternidades passaram sem que ele existisse; e se ele desaparecesse novamente, nada se teria passado; pois não há para tal intelecto uma missão que ultrapasse o quadro de uma vida humana. Ao contrário, ele é humano e somente seu possuidor e criador o trata com tanta paixão, como se ele fosse o eixo em torno do qual girasse o mundo." (NIETZSCHE. Verdade e Mentira no sentido extra moral. Trad. Noéli Correia de Melo Sobrinho. §1)

      Termino com uma sábia e ponderada frase de Bertrand Russell para refletirmos:

      "O que realmente as impulsiona a acreditar em Deus não é absolutamente nenhum argumento intelectual. A maior parte delas acredita em Deus porque foi ensinada desde a primeira infância a fazê-lo, e essa é a razão principal. Ademais, penso que a razão mais forte que vem a seguir é o desejo de segurança, uma espécie de sensação de que existe um irmão mais velho a zelar por nós. Isso desempenha um papel profundo na influência do desejo de crer em Deus." (RUSSELL B. Por que não sou cristão. Trad. Ana Ban. L&PM. cap.1, pág.36).