segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Adeus, tia Jacira

     Minha tia faleceu hoje, 07/09/2014, tia Jacira, uma pessoa amada e querida por todos aqueles que a conheceram. Ainda em lágrimas escrevo esse texto, não apenas para desabafar, mas para deixar uma profunda reflexão a todos.

     “Um dia você aprende que o tempo não é algo que se possa voltar atrás”, como todos nós, tive muitos arrependimentos e várias vezes quis voltar no tempo ao longo da minha vida, mas nunca essa passagem do Menestrel de Shakespeare tinha se manifestado de forma tão visceral em mim. Já perdi outras pessoas queridas, mas dessa vez a dor é maior, se junta à culpa, um peso que carregarei até o fim:

     Ela passou por duas cirurgias pesadas, tanto na primeira como na segunda ficou um bom tempo internada. Naquela velha correria inútil que nos suga a vida, não fui na primeira, só a vi quando ela voltou para casa, depois tivemos um almoço em família quando pudemos conversar mais e depois a vi de longe (foi a última vez), lembro que a cumprimentei dizendo: “recuperando aos pouquinhos, né tia?”, ela sorriu e respondeu que sim; na segunda internação, quando eu estava marcando o dia para ir visitá-la, ela teve alta pouco depois – de alguma forma inconsciente me sentia meio que “representado” por minha mãe, que passou várias noites com ela, o que é uma grande bobagem, pois cada um é cada um, só se pode representar a si mesmo. Aí vem o que mais me dói, que corrói só de lembrar: quando ela chegou pensei em visitá-la o quanto antes, mas achei melhor dar alguns dias, tenho muitos primos e tios que certamente estavam lá, e meu tio José Maria, marido dela – diga-se de passagem, uma pessoa forte que eu admiro e respeito muito –, falou comigo que ela estava melhorando, mas de forma quase automatizada, o que é normal quando se pergunta por alguém tão próximo que está doente. Enfim, fui adiando, tentando achar um tempo para ir lá em meio a minha agenda com os “problemas” do dia-a-dia. Depois tive um resfriado pesado. Outra vez, quando podia ter ido, meu pai ia junto, e como mal nos falamos não seria legal. Enfim, o tempo foi passando, passava sempre correndo pelo lote, olhando para casa dela esperando a ver na varanda, no portão, às vezes parava e pensava comigo, “puxa, não fui lá até hoje”, às vezes esquecia disperso em afazeres e planos, outra hora dizia convicto, tal dia eu vou, mas não fui, definitivamente não fui. Hoje, pensei de relance em ir lá, mas o dia passou e agora passou com ele a oportunidade: à noite, enquanto eu arrumava minhas coisas para o dia de amanhã, pedi uma pizza e ao pegá-la, recebi a triste notícia, minha tia havia falecido. [Meus olhos estão ardendo, a cabeça dói, amanhã volto a escrever...]

     A primeira reação foi de choque, de incredulidade, de embaraço, nem as lágrimas vinham, passei por várias pessoas e parentes, quando entrei no quarto dela, encontrei meus primos chorando ao lado da cama, a ficha caiu, não pude conter minhas lágrimas. Um remorso angustiante começou a entrar em mim, não havia mais tempo, não podia mais conversar com ela, mostrá-la com a minha simples presença o quando ela significava para mim, não ter ido lá, não a ter olhado nos olhos era como se eu tivesse dito o contrário; eu tive tempo, isso é o que mais machuca.

     Tia Jacira era uma pessoa admirável, boa filha (sim, minha avó ainda é viva, e elas sempre tiveram uma relação muito além de mãe e filha, mas de amigas, minha tia foi o primogênito, a única mulher, de cinco), boa esposa, boa mãe, boa costureira, boa cozinheira e boa tia. Ficaremos com a lembrança dos bons momentos que vivemos, escolhi destacar aqui apenas um, pois tenho certeza que mais ninguém sabe: quando criança, fugindo do meu pai, fui até à casa dela, precisava ganhar tempo; lá tem uma daquelas enciclopédias antigas da Barsa, que vez ou outra eu pegava emprestado para fazer trabalhos escolares, foi a primeira ideia que surgiu na minha cabeça, pedir um livro; cheguei com a cara de menino assustado, pedindo o livro para fazer trabalho, só tinha um detalhe, era final de Dezembro! Isso mesmo, esqueci que estávamos em plena férias e ela podia desconfiar, o que de fato aconteceu, ela me disse: “uai Moisés, mas você não está de férias?!”, eu nem lembro a desculpa que dei, só sei que foi a mais esfarrapada do mundo, mesmo assim, ela sorrindo fingiu de boba, foi lá com toda boa vontade e pegou para mim o livro, sabendo que eu o largaria em poucos minutos.

     Lembrando disso, vêm várias outras memórias de pessoas próximas que se foram, possivelmente ocorre o mesmo contigo que está lendo, mas aqui vou destacar brevemente apenas aquelas que cresci ao lado, no mesmo lote que vivia a tia Jacira. São duas: minha tia Maria do Carmo (que a gente chamava de tia Carma), uma pessoa fora de série, que vivia mais para os outros do que para si mesma, que batalhava para criar os filhos e literalmente todas as crianças ao seu redor, sempre com um belo sorriso no rosto; e meu avô, Floriano, que não sabia ler, mas que nos ensinou muitas lições, sobretudo com suas atitudes.

     Essa semana estive lendo justamente Sartre, filósofo que argumenta à exaustão como somos responsáveis pelos nossos atos e escolhas, como não há transferência de tal responsabilidade, como cabe a nós fazer projetos, significar no mundo, neste mundo, como é na ação que os outros nos conhecem, como é parar e agir com autenticidade ou simplesmente ir vivendo seus dias na “má-fé”, em outras palavras, em vez de tomar atitudes, ir tão somente se deixando levar. Sou agnóstico, e como o autor mencionado, também não coloco esperança em vida após a morte, não acredito em espírito, não acredito em deus, não vejo sentido para se agarrar em tais hipóteses. Mas quem não quer que seja de fato verdade, reencontrar com os entes queridos num lugar de paz? Todavia, a possibilidade de tal existir é uma possibilidade puramente lógica, isto é, da mesma forma que a princípio tudo é possível, nada mais, não há qualquer fundamento real para crermos nisso. Mesmo assim, similar àquela situação de dar um tiro no escuro, no vazio, disse em lágrimas umas palavras ao vento, não me justificando por ter deixado de visitá-la, mas a pedindo perdão. Sinceramente, não tenho esperanças de ela ter de algum modo me ouvido, não tenho fé (respeito quem tem motivos pessoais para tal), seja como for, nada vai mudar o que passou, assumo meu erro de não ter ido lá, é preciso encarar os fatos de frente, levarei comigo essa culpa; mas pude aprender com isso o quanto realmente somos frágeis e que mais do que nunca, “não devemos deixar para amanhã o que podemos fazer hoje”. Termino com mais uma bela passagem do Menestrel:

     “Descobre que as pessoas com que você mais se importa na vida são tomadas de você muito depressa, por isso, devemos deixar as pessoas que amamos com palavras amorosas, pode ser a última vez que as vejamos.” (SHAKESPEARE, W.).

domingo, 1 de junho de 2014

BRT não Move!

1ª EXPERIÊNCIA:

Entro na estação em frente a UFMG, 17h38min, encontro funcionários mais perdidos do que cego em tiroteio, morcegando e etc., normal. Passo a roleta; os “4 minutos” para a chegada do ônibus escrito no painel eletrônico viraram quase 10. Embarco. Um ônibus sanfonado gigante, mas lotado como sempre, isso mesmo, literalmente pessoas esmagadas contra a porta. Penso: “pelo menos essa porra deve chegar mais rápido”, doce ilusão. Ele pára em todas as estações/pontos da Av. Antônio Carlos, mesmo que ninguém dê o sinal – não sei se nas estações tem alguma luz para avisar que tem gente para embarcar ou coisa do tipo, o fato é que ele parou em todas –, as paradas são relativamente demoradas, o que no final das contas atrasa bastante, não muda tanto para um ônibus que não esteja nos corredores específicos. Ele tem poucos pontos no Centro, mas inexplicavelmente roda bastante por lá. Em suma, cheguei 18h28min na área hospitalar, quase 1 hora dentro do “bonito” coletivo pra inglês ver, ou seja, não resolve absolutamente qualquer problema do trânsito! Sim, todo mundo sabia disso antes desse lixo ser feito, só o Lamerda não, ou melhor, não acreditamos em Papai Noel, fingia que não.

2ª EXPERIÊNCIA:

Pego outra linha, 5250, os funcionários da estação UFMG me disseram que ela tinha ponto no Centro, só que não...
Como na outra ocasião, porém mais cedo, demorou a beça na Av. Antônio Carlos, parando em todas as estações, estava cheio e novamente fui em pé junto à porta, mas quase dessa vez o filme do BRT foi queimado irremediavelmente no mundo inteiro.
O motorista estava acertando as portas do ônibus às da estação com bastante dificuldade. Em uma das estações, ao parar o ônibus e abrir as portas do mesmo para embarque, uma das portas paralelas da estação demorou a abrir, quando ela finalmente abriu e um homem foi entrar no ônibus, o motorista fechou a porta deste em cima dele, o prendendo nela, e começou a acelerar, o sujeito era forte, mesmo desequilibrado conseguiu se livrar a tempo e retornar com um salto para a plataforma da estação (imaginem se fosse uma senhora de idade ou uma criança!). Isso mesmo, ele perdeu o ônibus e por pouco não teríamos a notícia estampada no Super: “HOMEM MORRE ARRASTADO PELO BRT”.
Passado isso, só para registar (não fazer juízo de valor), entra um vendedor ambulante de balas e começa com aquele discurso de “sou ex-presidiário, ex-drogado, poderia estar roubando e matando, Jesuis te abençoa” e tal, pra você que gosta de balas, agora eles não precisam mais pedir o motorista para entrar, pagam uma passagem e atormentam com suas pregações à vontade, mas que se dane...
Bom, quando finalmente chego à área central, pergunto ao cobrador quais pontos havia no Centro, ele me disse que não sabia, então me dirigi ao motorista, fiz a mesma pergunta, e adivinha, este também me disse que não sabia! E o mais gritante, ele falou que era a primeira vez que estava dirigindo o BRT e que não teve qualquer treinamento, não sabia nem em qual rua entrar no Centro, O MOTORISTA CHEGOU A PERGUNTAR OS PASSAGEIROS ONDE ELE DEVERIA ENTRAR, sério! Aí um dos passageiros, olhando um folder, disse que não tinha ponto na área central, o mais próximo sendo na Rua Paracatú, o motorista sem saber para onde ir estava distanciando cada vez mais, pedi para ele abrir a porta pra mim, o que felizmente ele fez, desci em cima daqueles canteiros altos da Av. do Contorno, serviu como uma “plataforma” para aquelas portas sem degraus. Salve, salve Márcio Lamerda e cia!

Ps: aproveitando o post, na estação do metrô me informaram que havia integração do mesmo com o BRT, mentira, não funcionou.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Compartilho com vocês a experiência de ter dado aula na UFMG:

Na última terça-feira (08/04/2014) tive a oportunidade de lecionar em nível superior, para a turma do Direito, na disciplina "Introdução à Filosofia: Ética". Agradeço ao professor Joãosinho Beckenkamp por ter cedido sua aula e pelo companheirismo ao longo desses anos.

Foi uma experiência diferente, não importa quantas aulas você tenha assistido na universidade, estar no comando é outra coisa, conviver com a inevitável tensão: "se eu parar, a aula pára junto", além do cuidado para não dizer besteira, realmente não é fácil (sobretudo nos primeiros minutos).

Ser o foco da atenção de aproximadamente 50 alunos adultos, ou melhor, antes disso, conquistar de fato a atenção e despertar a curiosidade deles, exige muito esforço e concentração, quiçá mesmo dom. Certamente os alunos do Ensino Médio público que convivo são extremamente mais agitados, conquistar a atenção de todos eles é quase impossível, mas é bem diferente, por um lado, você não tem que ficar brigando com aluno pra parar de conversar e bagunçar, mas por outro, com todos ligados de início, a pressão é muito maior – embora algumas estratégias didáticas funcionem em ambos níveis, o público é outro, os meios são outros, os objetivos são outros.

Tenho pra mim que aula sem interação com os estudantes não é aula. Não digo que não podemos aprender sem tal, mas a participação dos alunos (mesmo que mínima) talvez seja o diferencial para uma aula ser tediosa ou não. Ora, se o objetivo é a aprendizagem dos alunos, não faz sentido um professor ficar só falando para si mesmo. Portanto, tomei tal tática nessa aula, e felizmente vi uma turma com vários alunos participando ativamente com questões e exemplos, praticamente todos eles extremamente focados, interessados e atentos em cada explicação da aula (tem que saber lidar com a situação, pois não pode ser só uma coisa ou outra, é uma verdadeira arte lidar simultaneamente com questões, a exposição das matérias e o andamento/tempo de aula). Minha aula foi com bastante ilustrações no quadro (como foi no CAD, quadro de pincel facilita a vida, rs), e ainda passei um vídeo para eles refletirem nas polêmicas da ética prática ("Solitário anônimo", pra quem tiver interesse, tem o vídeo no Youtube).

O tema da minha aula foi: "Como pensar a justiça e a ética?". Para tal, tomei os livros de um dos professores de filosofia mais famosos da atualidade, Michael J. Sandel, da Universidade Harvard, eles foram: "Justiça, o que é fazer a coisa certa" (Best seller do autor) e "O que o dinheiro não compra". No primeiro livro a discussão gira em torno das modalidades de Estado democrático, são elas: 1-Libertária, 2- Liberal igualitária, 3- Comunitária; o autor tem uma linguagem muito acessível e resume no livro a filosofia moral de Kant, Rawls e Aristóteles, trata ainda do Utilitarismo a partir de J. Bentham, e discute com um outro filósofo contemporâneo, Nozick (liberal). Tanto no primeiro quanto no segundo livro, Sandel traz questões do cotidiano, exemplos famosos e casos curiosos para ilustrar e discutir qual seria a coisa certa a se fazer, qual seria a melhor ideologia de Estado, quais os prós e os contras de cada um. Os exemplos de Sandel prende qualquer platéia, são realmente muito interessantes, esse é o diferencial dele. (Um dos cursos Justiça do Sandel está disponível no site: www.justiceharvard.org/‎ ).

Eu deixei claro qual é a posição que concordo, a saber, a Liberal igualitária, principalmente quando expliquei a filosofia de Rawls, interagindo com todos eles para mostrar o que seria o "véu de ignorância" do último, e como se faz justiça a partir dos princípios kantianos de universalização. Contudo, não deixei de mostrar os pontos que um comunitarista pode ganhar; o próprio Sandel foi considerado um defensor do estado comunitário, embora ele tenha dito que não gosta de ser taxado tão somente assim, pois compartilha muitos pontos do pensamento de Rawls (liberal igualitário).

Bom, o objetivo aqui não é fazer um resumo da aula, mas narrar a minha experiência. Foi muito bom ver como os exemplos do livro e outros despertaram a curiosidade dos alunos. Trago apenas mais um ponto da aula, exemplo muito bom que os fizeram perceber a importância da filosofia moral kantiana hoje, fazendo frente à posição utilitarista: foi quando falei do filme "Minority Report" do Steven Spielberg, onde, em suma, um ser humano é usado como meio para a felicidade de todos - esse exemplo resumiu horas de explicação sobre as falhas de uma posição utilitarista.

A turma se sentiu muito à vontade, e é muito bom saber que consegui despertar tal clima, penso eu, como introduzido no início do texto, essencial para qualquer aula. Muito legal ver a galera pedindo informações no final, trazendo dúvidas, curiosidades, dizendo que vai comprar os livros do Sandel (apesar de eu não ganhar porcentagens nas vendas, rs), perguntando sobre o Departamento de Filosofia e professores de ética, pegando meu e-mail e etc; destaco dois alunos que me disseram que a aula foi muito boa, literalmente me pediram pra dar mais aulas pra eles, foi muito gratificante. Muito bacana ter conseguido levá-los à uma reflexão essencial. O próprio professor Joãosinho que estava ali para me avaliar em relação à disciplina "Iniciação à docência", disse que gostou muito da aula.

Enfim, foi uma experiência ao mesmo tempo produtiva e muito legal! Aproveito o espaço para agradecer a todos os professores da UFMG que contribuíram para minha formação (além de, claro, os professores do meu ensino básico na E.E. Ondina Amaral Brandão e na E.E. Caminho à Luz, e os professores que acompanhei nos estágios), destaco as professoras da Faculdade de Educação (FAE), Suzana S. Gomes, Maria Cristina Gouvea, Savana Diniz, Maria Tereza e Maria Amália, que tem a tarefa de nos ensinar ser professores e lidam com muitos imbecis que desvalorizam tais disciplinas. De outros departamentos destaco os professores da Faculdade de Letras (FALE) Jacyntho L. Brandão e Antônio Orlando; do Departamento de História a Adriane Vidal, excelente professora, fiz com ela uma disciplina que sem dúvidas marcou minha trajetória, "Revolução e Socialismo na América Latina"; do Departamento de Antropologia a Ana Flávia; do Departamento de Física o Renato Las Casas e o Carlos Heitor; e do Departamento de Ciências Biológicas, o Anderson Miyoshi. Não vou citar nomes do Departamento de Filosofia porque são muitos e posso esquecer alguém, mas quero dizer que me espelho em muitos de vocês, de tal forma que aqueles que merecem tal elogio sabem por outros gestos, e não preciso dizer aqui. Obrigado.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Quem gosta de filme, não vai ao cinema

Hoje foi a gota d'água, assino o atestado de óbito do cinema.

Antigamente ir ao cinema era algo valorizado, marcante, hoje todos sabemos que isso se perdeu, desde que qualquer shopping passou a ter um. Mas não escrevo por saudosismo; mas para destacar e criticar a imensa e indescritível falta de educação, trato e bom senso de muitos frequentadores.

Já há algum tempo tenho ido muito pouco ao cinema, devido ao óbvio: conversas, barulho de gente mastigando intermináveis sacos de pipoca (mesmo nos filmes mais dramáticos e nas cenas mais fortes – não consigo conceber como isso é possível pra alguém que tem um cérebro dentro da cabeça), chupando litros refrigerante pelo canudinho, discutindo todo tipo de merda, contando o filme (spoilers), levantando durante o mesmo, chegando atrasado e tampando sua frente, sem contar os inúmeros odores, etc. Isso tanto em cinemas de shoppings populares ou nobres, embora nos últimos a merda seja um pouco menos gritante.

Com o advento da propagação do celular e dos preços reduzidos nas ligações, a falta de educação se mostrou também via esses aparelhos (não estou condenando uma classe social, vemos isso tanto por parte de pobres como de ricos). Perdi a conta de quantas vezes ouvi celular tocar durante o filme, não obstante os "agressivos" avisos para desligar o aparelho – o que diga de passagem, nem precisava pedir para gente civilizada; e no mais das vezes, quando tocava, o infeliz dono do trambolho, ao invés de ficar todo sem graça e enfiar o telefone no cú, atendia na maior cara de pau!

Enfim, das últimas vezes não aguentei algumas situações, cito duas delas para ilustrar: 1ª - fui assistir o último Harry Potter – calma, ninguém contou o final, se fosse o caso, com certeza derramaria sangue, rs... –, tinha um palhaço querendo aparecer a qualquer custo, fazendo uma gracinha atrás da outra pra todos ouvirem, tentei manter a calma, sério, mas no bilionésimo relincho gritado que o sujeito soltou perdi a paciência, mandei o cara pra puta que o pariu, criando um clima tenso no cinema, se saíssemos nas vias de fato o que não faltaria seria gente pra linchar o mané, embora muitos outros estivessem conversando alto e rindo como se estivessem em casa. 2ª - Outro caso foi quando assisti "Wolverine Imortal"; fui na sessão de pré-estréia (pelo menos evitaria que alguém contasse o final do filme), num cinema nobre, começando 00:00. Pensei eu que estariam presentes só fãs do filme (e não meros devoradores compulsivos de pipoca), mas muitos estavam ali não sei pra quê (detalhe, pagando caro, né); confesso que a bagunça foi bem menor do que de costume, mas não deixou de ter os mesmos inconvenientes (ora, estamos no Brasil!). Fora os incômodos clássicos, dei azar de ter um casalzinho fdp do meu lado, a menina não fazia a menor ideia de quem era o Wolverine ou os X-men, fingindo interesse, ela perguntava o babaca alguma coisa praticamente todas as cenas do filme (metade delas as mesmas questões), e ele, um nerd ordinário, explicava todos os detalhes até ela dormir. Essa conversa foi ficando cada vez num tom mais alto, cada vez mais irritante, e quando ele começou a ler em voz alta a legenda pra ela (é isso mesmo que você leu!), de novo apelei - até Gandhi teria feito o mesmo no meu lugar dessa vez -, o cara se mijou todo e ficou por isso mesmo.

Finalmente, o que me levou a decretar o óbito do cinema: o filme "12 Anos de Escravidão" já está um bom tempo em cartaz, vi que tinha uma sessão à tarde num shopping que não costuma encher, não é um filme voltado pra cultura de massa, não atrai aborrecentes, vai concorrer a vários oscars e, como curto paca ver a cerimônia de premiação, animei de ir. Doce ilusão. O único lado positivo foi que o filme é excelente, pois a experiência de vê-lo foi muito prejudicada pelo desrespeito, incapacidade ética e falta de educação crônica que se vê no Brasil. Ainda não havia comparecido ao cinema depois que os smartphones, androids, tablets e cia viraram febre, estava parecendo o show do U2 quando o Bono pede para apagar a luz e todos ligar o celular! Antes do caso mais grosseiro, quero destacar outro que não pode passar batido: havia um casal cinquentão falando alto como se estivessem deitados na cama vendo uma novela da vida, mesmo pessoas de mais experiência sem qualquer consideração aos outros. Bom, vamos ao fato consumatório: havia ao meu lado um troglodita acefálico com uma jumenta falante usando uma daquelas telhas "Ai-sei-lá-o-quê" acesas o tempo todo, parecendo o farol do Batman, foi simplesmente o CÚMULO no que diz respeito a ficar conectado à internet o tempo todo, DENTRO DO CINEMA! Não sei se você capitou bem, a jumenta ficou o filme todo no Facebook, vou repetir, o filme todo no FACEBOOK! Pagar R$ 20,00 (certamente ela não paga meia-entrada, não deve se quer saber o que significa a palavra estudante) pra usar o Facebook e afins durante o filme, alguém consegue pensar em algo mais estúpido? Eu não. Se esse "ser que faz a gente se envergonhar por ser da mesma espécie que ela" tivesse sentado no fundo da sala, vidrada naquele farol a cegando, que se dane, defendo o direito dela ser idiota, mas ela estava no centro do cinema! E não pára por aí, aquela telha começou a tocar, e adivinha, claro, ela atendeu e começou a falar como se estivesse em um boteco da vida! Eu a olhei com um olhar tipo "é sério que existe um ser tão viu, desprezível, baixo e medíocre como você?", até o troglodita sentiu vergonha de estar com aquele estrupício ao lado, frente à minha expressa desaprovação, quando ela minimamente se tocou e disse para a amiga de fofoca que ligaria depois.

Tentei ser estóico e me concentrar no filme, felizmente tive êxito na maior parte; mas algumas vezes me passou pela cabeça o que leva alguém a ficar com uma mulher daquela, aguentar a presença dela ao lado por uma hora que seja, mesmo que ela fosse muito gata (o que não era o caso), imaginando o grau de demência que alguém tem que ter para tal. A resposta veio ao final do filme: o sujeito levanta e simplesmente esquece a carteira e a chave do carro na poltrona, saiu como se estivesse tudo normal, deu sorte que a jumenta percebeu a tempo e voltou correndo. Esquecer pertences é um fato normal que pode acontecer com qualquer um? Sim. Mas devido as circunstâncias, tal se tornou uma grande evidência para corroborar a minha hipótese, qual seja, jumento e jumenta formam um belo par!

Alguns de vocês podem interpretar tais como fatos isolados, mas infelizmente não se trata disso. Destaco esses casos, mas basta ir ao cinema em qualquer dia ou horário pra ter mais um pra contar, no mínimo você terá as encheções de saco típicas e corriqueiras já descritas acima. E não faz mais sentido ir ao cinema pela imagem, as TVs de hoje dão de 10 a 0 naquela imagem meia-boca. Vale ainda destacar a péssima legenda branca sem contorno nas letras que literalmente somem em cenas claras (se não soubesse inglês, de boa que já teria parado de frequentar por isso). Não é nem mesmo um bom lugar pra levar alguém que você quer ficar, apenas mostra a sua falta de criatividade.

Em suma, devido à falta de educação, modos, gentileza e civilização alheia, quem gosta de filme não vai aos cinemas. Por essas e outras não podemos achar ruim quando vemos um gringo de país de primeiro mundo falando mal do comportamento animalesco brasileiro.

sábado, 7 de setembro de 2013

Destruindo o mito da cerveja e do cigarro

     Para começar, quero deixar claro que não estou tomando uma posição paternalista ou moralista ao escrever essa crítica, antes de mais nada, faço coro com o "deixa quem quiser fumar, fumar; deixa quem quiser beber, beber" e, obviamente, com o "deixa quem quiser se ferrar, se ferrar". Pretendo fazer uma breve análise do problema, apresentando em seguida argumentos pessoais e gerais contra o uso (não advogando pela proibição, claro) de tais substâncias. Sem mais delongas, vamos ao texto:

     Penso que o principal motivo que está por trás do uso de tais substâncias, cada uma com sua peculiaridade, é o olhar do outro, sobretudo quando o indivíduo começa a utilizar tais, em outras palavras, a forma como o outro vê conta mais do que a própria opinião e/ou gosto do fumante ou daquele que bebe (ia usar a palavra "bêbado", mas seria desproporcional, uma vez que tal é utilizada como um excesso do uso de álcool, e não é o caso de todos). Vejamos os adolescentes – fase onde a maioria dos usuários viciados em tais drogas começam a utilizá-las –, estão num período da vida de descobertas e novidades, muitos gritam para os pais que cresceram chegando bêbados em casa ou fumando um cigarro na "cara dura", uma piada que muitos dos que estão lendo já viveram ou conhecem alguém que viveu. Nada como mostrar toda a sua rebeldia usando tais drogas (não focarei aqui nas outras drogas, as chamadas ilícitas, até mesmo porque normalmente elas só entram num segundo momento, mas também certamente se aplicam a tais). Mas não é só o olhar dos pais que estão em conta para os "aborrecentes", inclusive podemos afirmar com segurança que esse não é o primeiro, o olhar que mais conta é o da turma, dos amigos, dos colegas de classe, do namorado(a), enfim, querem ser aceitos, querem fazer parte de um grupo, querem não ser "caretas". É óbvio que não são todos que passam por essas aventuras da adolescência que serão viciados ou dependentes, mas esse começo já mostra o caráter alienante da bebida e do cigarro.
       Antecipando as críticas ad hominem, quanto a mim, por N motivos, por ver pessoas próximas sofrendo com tais substâncias, por estrar inserido em um meio religioso na época, felizmente não tive uma adolescência desregrada com tais substâncias. Mas mesmo depois, ao experimentar (e por sinal, diga-se de passagem, ter detestado), não cheguei ao ponto de inabilidade, apenas provei. Sempre achei ridículo pessoas contando como se fosse um grande feito ter bebido até cair, e hoje não é diferente, felizmente não precisei passar por tal para saber quão patético é – a propósito, penso que essa capacidade de empatia é uma das que temos mais que desenvolver, em relação ao bem ou ao mal, sendo o último uma questão de sobrevivência, podemos dizer de forma aforística: feliz aquele que consegue evitar os males a partir dos exemplos alheios. O outro todo vomitado certamente é uma grande lição. O mais cômico é quando alguém lhe diz: "com o tempo você aprende a gostar", ora, porque razão no mundo aprender a gostar (se é que isso é possível) de algo que se detesta sem quaisquer ganhos reais?! Abro um parênteses para dizer que tenho amigos que deixaram a religião e se tornaram verdadeiros alcoólatras, mas não acho que a religião tem de fato um papel louvável em manter as pessoas longe do que, sem eufemismos, os fiéis gostam; não obstante os ganhos sociais, penso que a pessoa tem que se conscientizar que tal é um mal (ou não, cada um cuida de si), não simplesmente ser convencida por um "deus punidor que está nos céus a vigiar".
       A cerveja é um caso/piada a parte, é a alienação encarnada, repito a passagem do meu texto Alienação Social: "...vejam as propagandas de cerveja. Sol, praia, roda de amigos, felicidade, mulheres, tranqüilidade, etc, etc... É impressionante como muitos são alienados nesse ramo! A cerveja não traz felicidade nem amigos (ao contrário, muitas das vezes afasta), mas não é o que passam na mídia, logo a realidade passa a ser ficção e a ficção vira realidade. Alguém já viu, na história das propagandas de cerveja, uma que mostrasse um bêbado se quer? Parece que as cervejas das propagandas nem álcool têm, até atletas bebem! rs...". Desculpem-me os seres humanos que realmente gostam do sabor dessa cerveja padrão, para mim ela parece mijo (não faça graça, não bebi mijo, abraço essa expressão popular), um amargo fodido, uma cor ridícula, um cheiro asqueroso, uma espuma que parece sabão, ou, quando é fraca demais, não tem gosto de nada. O "prazer" mais concreto acaba se reduzindo a tomar algo gelado? Talvez; mas qualquer outra bebida é melhor assim. O mais absurdo, no que diz respeito a tal merda, é o fato de que a maioria dos que a tomam não apreciam o gosto, abertamente confessam que tomam pelo álcool, pelos amigos, pelo namorado(a), pelo ritual – a grande maioria das mulheres que conheço não gostam de cerveja em qualquer aspecto, tomam apenas para acompanhar um babaca qualquer que já vai as servindo, e o triste é que essas pessoas que tomam pouco são as mais vulneráveis, por falta de costume, sentem mais –, ou, a meu ver o que é pior, muitos alegam que não conseguem "se soltar", traduzindo, ter momentos felizes, não conseguem existir como são. E quanto mais a pessoa se convence disso, chega ao ponto que não consegue mais rir sem o uso de álcool (ou outra droga), não consegue conversar, as festas não são festas, muitos passam a não conseguir fazer sexo ou ter qualquer prazer sem estar alcoolizado – às vezes mal suportam a presença dos seus parceiros e "amigos"; aí colocam uma máscara chamada bebida alcoólica e passam a não ser mais elas mesmas, onde todos os momentos "felizes" não são reais (boa parte deles esquecidos na manhã seguinte), mas breves momentos de falsos risos seguidos por horas de arrependimentos. Teatralizam, suportam o que, ou quem, não as agradam, ficam rindo sem sentido de toda merda dita na mesa e fazendo politicagem barata. Não estou dizendo que o mundo de quem não bebe é um conto-de-fadas de pura alegria, mas seja como for, em momentos bons ou ruins, é um mundo real. Não quero mentir para mim mesmo, confundindo, através de uma droga, momentos simples (ou mesmo chatos) com os de puro prazer que vivi. E sim, é preciso encarar momentos ruins de frente, só assim podemos superá-los. Essa alienação da cerveja é tão gritante que se evidencia até o efeito placebo, de forma mais intensa que corriqueiramente se vê, no primeiro gole boa parte das pessoas se soltam, sem ter tido qualquer possibilidade do álcool ter realizado efeitos bio-químicos no corpo, muitos só de estarem com a lata gelada na mão já se sentem seguros, "alegres". E se convencem de que todos precisam de cerveja, da "felicidade" em latinha, se surpreendem quando se deparam com alguém que deliberadamente escolhe não beber, como se fosse uma verdadeira aberração. Desculpe-me a franqueza, mas para mim, visto de forma geral e tomando como base a maioria dos utilizadores, a cerveja é o néctar dos tolos; muitos se fossem filmados bêbados, ao ver quão ridículos, toscos e vulneráveis ficam, pensariam duas vezes antes de ingerir qualquer bebida alcoólica.
       Quanto aos efeitos colaterais do álcool, todos estão carecas de saber, mas como afirmei no início que apresentaria argumentos pessoais e gerais, discorrerei brevemente sobre tais nesse parágrafo. Bom, o álcool é um dos principais desencadeadores de enxaqueca, particularmente, se eu tomar, fico propício a ter uma, mas mesmo para quem não tem essa dor-de-cabeça específica, o álcool provoca a famosa dor-de-cabeça da ressaca, que se muitos refletissem na última que teve e na indisposição que ficam no dia seguinte, deixariam de tomar. Via de regra, nosso organismo identifica o álcool como um verdadeiro veneno – quanto mais rápido o efeito de tal droga passar, mais sadio é seu organismo –, mesmo pequenas quantidades, pois o álcool é sempre uma agressão ao corpo, por isso a famosa ânsia de vômito, o que é um problema por si só, pois quando não acontece o revertério, o organismo absorve tal, gerando, no mínimo, a desidratação – já ingerido em grandes quantidades, sabemos que tem idiotas indo ao coma alcoólico e eventualmente a óbito. A longo prazo sabemos bem os males do álcool, destruindo não apenas o fígado (contra muito divulgado), mas literalmente todos os órgãos, inclusive o cérebro, debilitando com o tempo a memória, os reflexos, a libido e a capacidade de raciocínio; mas a maioria das pessoas são estúpidas (sim, esta é a palavra se eu pretendo ser franco), e como esses maus efeitos se dão paulatinamente, não tendo uma significância imediata, acham que eles não existem. Sem contar que a tendência é beber cada vez mais, pois, como qualquer outra droga, se regularmente ingerida, o corpo vai "aprendendo" a combater os efeitos, de forma que doses baixas não dão o mesmo resultado. Vejamos então os efeitos colaterais: há inúmeros levantamentos de dados que comprovam a ligação de acidentes automobilísticos com o uso de álcool, matando inclusive inocentes que nada tem a ver com o jumento bêbado irresponsável atrás do volante; brigas e confusões em estádio de futebol diminuíram inegavelmente após a proibição de bebidas alcoólicas em tal local, o que comprova que boa parte das confusões onde há aglomeração de pessoas se dá pelo fato dos indivíduos estarem alcoolizados. Vemos ainda pessoas dependentes de tal substância destruindo suas famílias, que ao invés de agirem para mudar os revezes da vida, simplesmente "afogam as mágoas" em um copo de bebida – bom se ficarem só nisso, pois muitas delas se transformam com a droga, ao ponto de chegar em casa e descontar nos pais, no cônjuge e nos filhos, gerando agressões e mesmo assassinatos; muitas pessoas contraem HIV e outras doenças venéreas em momentos de embriagues, ou engravidam de forma indesejada, o que, por sua vez, aumenta o número de abortos (sobretudo inseguros, tendo em vista a atrasada mente dos nossos legisladores sobre essa questão); muitos estupros e outros crimes acontecem devido ao álcool, seja o autor ou a vítima embriagada, não é atoa que existe o infame ditado: "cú de bêbado não tem dono" (obviamente não estou justificando tal, mas analisando os fatos). E para aqueles que ainda não viram na prática, o estado que fica alguém realmente dependente químico do álcool é deplorável, falam muito de como o crack destrói uma pessoa, mas num estágio avançado, não tem diferença, a não ser uma, qual seja, o álcool é barato, legal e vende em qualquer esquina. Sendo direto, mortes seriam evitadas sem o álcool.

       Ok. Foquemos agora no cigarro. Muita coisa de uma droga se aplica à outra, sendo assim, não repetirei minuciosamente aquilo que elas têm em comum. Começo chovendo no molhado, pois as anti-propagandas do cigarro já mostram exaustivamente os inúmeros argumentos contra o mesmo, destruindo principalmente todos os órgãos do sistema respiratório e do circulatório, causando ou agravando câncer, enfisema, asma, bronquite, trombose, infarto, úlceras, impotência sexual, e etc. Como disse que apresentaria também os meus motivos pessoais, sou alérgico à fumaça, de forma que a mesma gera ainda mais problemas ao meu sistema respiratório do que em quem não é, causando alguma dificuldade respiratória com relativamente pouca exposição, isso ocorre pois, falando de forma ilustrativa, é como se alérgicos tivessem uma "super-proteção" contra esses males externos, de forma que o organismo exagera para se proteger, reduzindo momentaneamente as vias aéreas para se entrar menos ar agressivo. Pois bem, a fumaça é evitada por todos os animais como um reflexo, é natural todo ser que respira fugir dela movido por um instinto de sobrevivência; mesmo sem as pesquisas médicas avançadas de hoje, sempre se soube que a fumaça faz mal ao organismo, portanto, é difícil ver algo mais estúpido do que inspirar fumaça deliberadamente, mas os "homo-imbeciens" fazem tal. O cheiro que a desgraça deixa alguém, exalando até pela pele, diz com todas as letras que aquilo está te prejudicando. Mãos e dentes amarelos, pele seca, bafo, voz rouca, enfim, fôlego e disposição reduzidos, só não vê quem não quer. Mas, assim como no caso da cerveja, tendo em vista que para maioria dos fumantes os grandes males não são observados em pouco tempo, muitos acham que eles não existem. Certamente há um mal evidente, bem imediato e claro, a abstinência de nicotina gera pânico, tremor, calafrios, palpitações cardíacas e outros sintomas nos dependentes dessa substância, mas eles ignoram tais, pois providenciam para que não falte; com tantos problemas que já temos, inventam mais esse para se preocupar, uma busca insaciável e incontrolável. Mas enfim, já falei demais sobre os males que todos nós sabemos de cor, em suma, com tanta informação, tem que ser muito alienado para começar a fumar (veremos a seguir o que leva alguns a ter esse hábito). Felizmente hoje não vemos mais na TV o mito de jovens saudáveis, "escaladores de montanha" chegando no pico e acendendo um cigarro como outrora.
     O cigarro, ao contrário de outras drogas inalatórias, não gera alteração na consciência, o efeito que alguns dizem dele ser um calmante é mais placebo do que ação da nicotina e/ou demais substâncias. Pergunta-se, portanto: o que leva alguém em sã consciência fumar? Mais uma vez, como dito no início, penso que o principal envolvido (não só) é o olhar do outro. Mesmo não tendo mais propagandas diretas sobre o cigarro, temos as indiretas, por exemplo nos filmes, seriados e afins. De forma que, o cigarro representa um "dane-se", representa autonomia, rebeldia, liberdade, e etc. Estados ilusoriamente buscados no cigarro por adolescentes ingênuos que querem se auto-afirmar? Talvez, boa parte sim. Mas porque vemos adultos fumando, mesmo sem ninguém por perto, alguém pode estar pensando isso para me refutar. Ora, tente outra! Segue como vejo isso: o poder de dependência do cigarro é muito alto, logo, com pouco tempo o olhar do outro passa a não ser o único motivo – apesar de continuar sendo um dos, a ilusão condicionada desde o início de que cigarro é bonito e te deixa "fodão"; quanta ingenuidade! –, a fumaça se torna algo prazeroso ao fumante, não apenas devido ao efeito placebo, mas ao efeito da substância altamente viciante nicotina no sangue (e outros vários químicos nocivos presentes no cigarro, que também geram alguma dependência). Outro ponto que não podemos desconsiderar é a força do hábito, um sujeito costuma fumar sempre depois do almoço, outro sempre ao tomar um café ou uma cerveja, outro sempre em festas, outro sempre que está ansioso, nervoso, com raiva, medo e por aí vai, outro no ponto de ônibus, outro ao sentar no trono do banheiro e assim por diante. Junta isso tudo, temos como resultado dependentes crônicos. Meu avô adorava o cheiro do cigarro mais do que qualquer outra coisa, após tanto tempo, o olhar dos outros realmente passou a ser só um pano de fundo para ele; morreu de câncer no pulmão, quando adoeceu e foi obrigado a parar de fumar, refletindo, não se via a não ser como um estúpido por ter fumado a vida toda, usou várias vezes a expressão: "eu destruí a fonte da vida". Infelizmente não teve volta. Sim, todos nós vamos morrer, de uma forma ou de outra, mas certamente ninguém quer sofrer, e o cigarro não traz apenas sofrimentos no fim da vida, mas durante ela.
       Então, a situação é tão gritante, salta tanto aos olhos, que é difícil a gente compreender um sujeito plenamente informado dos males que o cigarro causa não querer parar de fumar, se ele tem ciência de fato, certamente quer largar o vício, mesmo se o sujeito for um suicida (ora, mate-se de forma rápida!); indubitavelmente se trata de um "prazer" que não vale o preço que se paga. Um amigo meu médico, falando sobre essa questão da informação, mencionou ter lido um estudo feito com alunos do ensino médio na Alemanha, onde foi apresentado um pulmão de fumante ao lado de um de não-fumante (para quem não sabe, o pulmão do fumante é completamente preto, com uma textura horrível), resultado, tanto o número de alunos que experimentavam cigarro como dos que continuavam fumando caíram. Quanto mais tangível for a informação, certamente ela terá mais impacto, pois a minoria tem tendências masoquistas para com seus próprios órgãos.
       Não podemos desconsiderar ainda um grave problema colateral, os fumantes passivos, muitas vezes crianças, que pagam o preço dos viciados inconsequentes. Sem contar o quanto esses produtos (álcool e cigarro) alimentam esse sistema capitalista visceral, não apenas com a venda dos seus lixos, mas fortalecendo cada vez mais a mercantilização da saúde, uma vez que são uma fábrica ambulante de doenças. Essas empresas são verdadeiros impérios, vendendo indiscriminadamente a morte e o sofrimento, ética é uma palavra que elas não têm no dicionário, onde os porcos donos das mesmas estão em uma banheira de hidro-massagem (quiçá de ouro) rindo da sua cara nessa hora – indico os filmes O Informante (1999) e Obrigado por fumar (2005) para se ter uma ideia. Sei que é difícil parar com tais vícios, mas creio que todos deveriam ao menos tentar, as pessoas que conheço que pararam com tais se setem bem melhores hoje. Se você não for se matar ou matar os outros por causa da abstinência, tente.
       Cito esta passagem de Sêneca para corroborar o que fora dito aqui, reflita: "A vida, se souberes utilizá-la, é longa. Mas uma avareza insaciável apossa-se de um, de outro, uma laboriosa dedicação a atividades inúteis, um embriaga-se de vinho, outro entorpece-se na inatividade; a este, uma ambição sempre dependente das opiniões alheias o esgota, um incontido desejo de comerciar leva aquele a percorrer todas as terras e todos os mares, na esperança de lucro; a paixão por assuntos militares atormenta alguns, sempre preocupados com perigos alheios ou inquietos com seus próprios; há os que, por uma servidão voluntária, se desgastam numa ingrata solicitude a seus superiores; a busca da beleza de um outro ou o cuidado com a sua própria ocupa a muitos; a maioria, que não persegue nenhum objetivo fixo, é atirada a novos desígnios por uma vaga e inconstante leviandade, desgostando-se com isso; alguns não definiram para onde dirigir sua vida, e o destino surpreende-os esgotados e bocejantes, de tal forma que não duvido ser verdadeiro o que disse, à maneira de oráculo, o maior dos poetas: 'Pequena é a parte da vida que vivemos.' Pois todo o restante não é vida, mas tempo." (SÊNECA. Sobre a brevidade da vida. § II, 1-3).
      Tenho ainda outros contra-argumentos para o uso de tais substâncias, mas creio ser suficiente por hora, e não quero estender ainda mais para evitar que o texto fique cansativo, ressalto que o foco da minha crítica não é você que de vez em quando toma uma cerveja, que consegue passar festas e que vive os mesmos momentos sem essa substância, que não bebe para ter que ficar mudando seu verdadeiro humor, que toma sozinho com o mesmo gosto (gosto não se discute, rs), e se quiser fica o tempo que desejar e em qualquer ambiente sem – mas, é certo que, sendo assim, você é um caso raro. E, reitero, para mim o mais importante é você fazer o que quiser, desde que não prejudique os outros, mas pense sobre isso que trago aqui. Boa sorte. Enfim, se aparecer um defensor de tais, podemos continuar nos comentários do texto. Termino com a bela imagem do livro de Platão, "O Banquete", onde Sócrates sai sóbrio, feliz e pleno de si, muito superior aos seus convivas desmedidos escornados em um canto qualquer: "Mas os outros, sem conseguir acompanhá-lo, caíram no sono. Primeiro adormeceu Aristófanes e, ao amanhecer, Agaton. Sócrates acomodou-os, levantou-se e saiu. Como de costume, Aristodemo o acompanhou. Sócrates dirigiu-se ao Liceu, tomou banho e passou lá o dia inteiro. Ao entardecer foi para casa repousar" (223d).