domingo, 31 de julho de 2016

Sério, “Ditadura do Proletariado”?!

     “Ditadura do Proletariado”, esse é um dos conceitos mais imbecis e estúpidos que foi difundido loucamente nos últimos tempos, quiçá o mais. Por duas razões primordiais: 1- Não condiz em absolutamente nada com a verdade; 2- As pessoas que o usam não fazem a menor ideia do que estão falando. Por essas e outras, podemos afirmar sem receios: a direita nunca foi tão burra como hoje em dia. Cada vez mais, em qualquer tema que seja, quando se diz “debate entre a esquerda e a direita”, podemos traduzir por: “debate entre quem pensa e quem não pensa”.
   Venho escutando essa bobagem vinda da boca de figurões da direita e semianalfabetos coxinhas há um bom tempo, mas o que me motivou a escrever esse breve texto (não precisa gastar muitas palavras para refutar isso) – entenda-se, o que me motivou como a “gota d’água” final que transborda o copo – foi o programa Fla-Flu da TV FOLHA, do dia 07/07/2016, sobre o feminismo, onde as convidadas para o debate eram Sâmia Bomfim (não escrevi errado, o nome dela é esse mesmo, m antes de f, rs), como representante da esquerda, a favor do feminismo, e Sara Winter, como representante da direita, contra o feminismo. Não vou aqui debater ou comentar o conteúdo da entrevista, embora tenha sido o estopim desse texto, não é meu propósito, até porque é apenas mais um debate que se enquadra na definição apresentada acima para esquerda contra direita, a saber, debate entre quem tem um cérebro dentro da cabeça contra quem não tem. [Debate realmente pouco produtivo, salvo para escancarar ainda mais a falta de argumento e o pensamento raso dos ditos “direitistas”, mas quem quiser ver, segue o link: “Fla-Flu:Ex-Fêmen diz que ativistas inventam casos de violência; feminista nega”].

     A Sara Winter, entre muitas outras inúmeras besteiras (como dizer que o PT é esquerda, que mesmo em caso de estupro não deve ser permitido abortar, negar as conquistas históricas dos movimentos feministas, defender Bolsonaro e Alexandre Frota, os partidos que impõem a ideologia cristã, e etc.) e flagrante falta de informação, em um determinado momento soltou o parvo clichê da direita para atacar sua debatedora: “Ditadura do Proletariado”. Vejamos então que prova de estultice é essa expressão. Primeiramente, como todos sabem, o termo proletariado nesse sentido é oriundo do filósofo Karl Marx (1818 – 1883), portanto, o intuito dessa expressão é atingir a filosofia marxista (ou comunista, como preferirem). Mas o tiro sai pela culatra, pois só mostra como os que a usam não conhecem absolutamente nada de Marx (eles não conhecem nada de nada, mas enfim). Muito bem, para isso ficar claro, é importante fazer a pergunta elementar: “quem é o proletariado?”. Aula básica de sociologia: de acordo com a visão marxiana, proletariado é a classe que só tem a força de trabalho para vender; o termo tem origem no conceito de “prole”, filhos, quer dizer, o proletariado é aquele que só tem a força de trabalho própria e de seus filhos. “Ditadura” dispensa definições (espero que saibam ao menos isso, caros coxinhas).

      Se se pode falar de ditatura propriamente dita no mundo, é a ditadura do capital; onde se morre de fome com comida sobrando ao lado, onde se mora na rua, onde a saúde e a educação são mercantilizadas, em suma, onde o ter supera em todos os sentidos o ser. Modelo insustentável e insano que hoje é tido como natural. Mas não vou entrar nessa seara para não me alongar muito, basta ver os fatos, olhar o mundo e não o seu “mundinho”. Poucos ditam sobre muitos, por assim dizer.

     Tomemos apenas o caso do Brasil. Segundo o IBGE de 2010 (o último realizado), pouco mais de 3% da população brasileira ganham acima de 10 salários mínimos (diga-se de passagem, 72% ganham menos de 2 salários mínimos, na época R$ 1020,00 – não é necessário prolongar para dizer que se trata de salário que não dá nem para subsistir de forma plena). Nesse sentido, poderíamos dizer que o “proletariado” é representado por ao menos 97% da população no nosso país! (Ao menos, pois tem os que ganham um pouco mais, porém não são donos dos meios de produção, o que basicamente faz de alguém um membro da burguesia). Você pode estar pensando que o Brasil tem mais empresários do que isso, mas o que está em conta não é isso, mas sim quem são de fato os donos dos meios de produção, que certamente não ganham menos do que 10 salários mínimo por mês – o chamado pequeno empresário, que via de regra ganha menos do que isso, que trabalha o dia todo na sua loja, também oferece é a sua força de trabalho em última instância; quem vende as matérias primas, as ferramentas e/ou os produtos fabricados para a pequena empresa deste é que são os legítimos burgueses. Em uma palavra, por si só, ter um comércio pequeno não o faz ser parte da classe burguesa. Ora, dessa forma, dizer “Ditadura do Proletariado” é insano, percebe? É como dizer que você é ditador de você mesmo! Afinal, estamos falando de ao menos 97% da população! (Sejam assalariados ou pequenos empresários). Reclamar de um (possível) Estado que apoia o proletariado é praticamente o mesmo de reclamar de um Estado que apoia a todos. O correto seria dizer governo (do povo para o povo). Dizer o contrário é de uma ignorância galopante! Quem usa essa expressão lunática está defendendo os privilégios de uma minoria numericamente insignificante em detrimento de todos dos demais. Absurdo é os burgueses ditarem as regras como reis, o que infelizmente acontece hoje. (Vale lembrar que, ainda segundo o IBGE 2010, apenas 0,9 % da população ganham mais de 20 salários mínimo – grupo esse que poderia ser enquadrado na chamada "alta burguesia", que realmente comanda o país).

      Meus caros, sintetizando, esse termo não passa de uma falácia grosseira, sem pé nem cabeça, sem qualquer sentido válido. É impressionante como um lixo assim é propagado, muitas vezes até pelos próprios proletariados alienados que não se veem como tais, que defendem a elite dona dos meios de produção e seu cruel sistema sem se quer fazer parte dela. Francamente, a direita já foi mais inteligente, ou melhor, menos burra. Hoje esses energúmenos delirantes basicamente só repetem meia dúzia de conceitos furados que ouviram por aí, e ainda com ares de erudição. Eles são a sua própria refutação.

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